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As compilações epistolares são relativamente raras entre nós. Mas o acervo de cartas que foi publicado no volume Camilo Íntimo. Cartas inéditas de Camilo Castelo Branco ao Visconde de Ouguela (Clube do Autor, 2012) ganha uma dimensão de raridade ainda mais acentuada. Em primeiro lugar, pelo factor de risco associado à publicação de um livro deste género, em tempos como os que vivemos.
Na frase escolhida para figurar em epígrafe, tirada de A epistolografia em Portugal, Andrée Crabbé Rocha começa por afirmar que «Todo o epistolário camiliano constitui um documento de primeira ordem para o conhecimento íntimo do homem-tragédia de Seide, das suas estranhas reacções, e do seu génio agreste e contraditório». A afirmação aplica-se, como uma lei, ao presente epistolário.
As cartas agora publicadas não revelam um Camilo diferente, mas deixam-nos entrevê-lo longamente na sua intimidade dolorosa ao mesmo tempo que confirmam plenamente o que diz João Bigotte Chorão no posfácio: «… ele distingue-se dos seus confrades por não ser propriamente um escritor de ideias, mas sobretudo um escritor de sentimentos e ressentimentos, patético e lúdico, não raro vulgar e fora do comum, de uma brevidade telegráfica ou de uma larga eloquência. E qualquer que seja o registo e a dimensão, um raro domínio da língua, que conhecia e usava como poucos».
Não cabem nesta breve nota, nem por sombras, todos os motivos de interesse deste conjunto de cartas. Como aquele desabafo com que, em 1876, declara que está cansado dos livros e da falta de novidade que encontra neles: «Sabes o que me ampara? É esta absoluta solidão, esta tristeza do ar e da terra, o rufo da chuva nas vidraças, e 4 cães a latir de noite como se vissem a lua».
Livro raro, portanto, este Camilo Íntimo, e indispensável. Raro até pela sua robustez editorial, mas não sem mácula, pois infelizmente alguns aspectos mereciam maiores cuidados (incompreensível a variação da entrelinha e a irregularidade das anotações, por exemplo). Mas, sem dúvida, um dos livros mais interessantes dos últimos tempos.

Texto integral aqui.

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