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A Odisseia (…) tem como tema central uma série de episódios posteriores a esse acontecimento [o cerco de Tróia, episódio central da Ilíada]: o regresso à pátria de um dos chefes aqueus que no cerco intervieram — Ulisses (ou Odisseus, como em grego se dizia) — e as várias peripécias que lhe foram retardando, ao longo de dez anos, a efectivação de tal regresso. Dez anos! Com os outros dez que durara o cerco de Tróia, temos assim Ulisses, durante vinte anos, afastado da sua terra — Ítaca — , de sua mulher Penélope e de seu filho Telémaco, que não passava de uma criança quando ele partira. A lembrança da pátria e a lembrança destes dois seres amados — ambas igualmente persistentes— é que dão a Ulisses uma indomável força de ânimo para lutar contra todas as dificuldades e constantemente lhe aguçam o engenho para sair triunfante das embaraçosas situações em que é colocado pelas vicissitudes da viagem, pelo capricho dos deuses, pela fúria dos elementos, pela hostilidade de inúmeras forças naturais e sobrenaturais que se lhe atravessam no caminho.
Uma deusa — Calipso— durante sete anos o retém na sua ilha, prometendo-lhe a eternidade em troca da sua permanência; mas Ulisses prefere todos os riscos de continuar a ser mortal — visto que nissi reside a sua condição de ser humano— , e a deusa, por fim, conquistada e comovida pela humaníssima dignidade desta escolha (que ela, todavia, como deusa que é, não consegue inteiramente compreender), acaba por deixá-lo partir, na frágil jangada que ele próprio constrói… Antes disso, já uma feiticeira, também com poderes divinos — Circe— , que tinha o mágico poder de transformar os homens em animais, procurara igualmente retê-lo, depois de ter convertido em porcos os próprios companheiros de Ulisses; contudo, logo nessa circunstância, também Ulisses consegue levar a melhor… Em ambos os casos, ele é o homem que só como homem deseja viver: que não consente que o elevem à categoria dos deuses nem permite que o degradem ao nível dos animais. E este será, decerto, sem prejuízo de outras interpretações, o fundamental valor simbólico dessas duas «aventuras» — que são aliás aventuras «amorosas» e que, também no plano do amor, podem ser encaradas desse modo.

David Mourão-Ferreira em Imagens da Poesia Europeia, 1º Vol., Lisboa, 1970, reeditado em Colóquio|Letras, nos. 166/167, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Janeiro-Junho de 2004.

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