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Teoria das Ideias

Quando um sujeito vê que as coisas singulares e concretas são tal como se apresentam ao seu conhecimento sensível é, em função desta crença que lhes impõe nomes, dizendo de uma que é água, de outra que é ar, ou árvore, outro homem, etc. Até os que se elevam ao conhecimento matemático apuram que tal é um triângulo, outra um quadrado, etc.

O filósofo dá-se conta do carácter irreflectido desta maneira de falar. O que bebe não é água, mas algo que tem a forma de água; o que respira é imagem do ser; o que se encontra na floresta é semelhante à árvore, etc. Da mesma forma, o matemático não deve chamar às coisas triângulos, mas triangulares. Daqui resulta que as coisas do mundo sensível são semelhanças, imitações, aparições, imagens ou formas de outras coisas que as regem e determinam. Cada coisa do mundo sensível é simples manifestação diminuída de um eidos, todas as coisas do mundo sensível são cópias degradadas pelas Ideias do mundo inteligível. As coisas objectos de sensação não se identificam com as Ideias, objectos da inteligência, antes não participam destas.

Descoberto o mundo das Ideias, o filósofo deve consagrar-se ao seu estudo, uma vez que a sua tarefa é promover a inteligência do inteligível. O conjunto das ideias constitui o mundo transcendente do sensível, permanente, imutável, intemporal e inespacial. Possui unidade, individualidade, e, por isso, indivisibilidade interna e ausência de diferenciação. Pode, por isso, ser definitivamente delimitado e definido: razão pela qual, a tarefa do filósofo consiste na busca das Ideias e das suas definições.

As Ideias que se situam acima de todas as outras, realidades supremas e absolutamente consistentes, são o Bem, a Beleza e a Justiça, sendo as duas últimas derivações da primeira. É na Ideia de Bem que se sustentam todas as ideias e é dela que recebem a sua consistência, o que eles são em si mesmas. Tal como é apresentado na «alegoria de Caverna», de uma forma que a luz do sol nos permite ver os objectos sensíveis, destacando-os e dando-lhes forma, pondo-os em relevo, assim também a ideia de Bem. Tudo ilumina a forma visível, dando sentido. A ideia de Beleza banha de luz e claridade o mundo das realidades físicas que torna, pela sua envolvência, belas. A ideia de Justiça exerce um papel semelhante no mundo humano: regula as três partes de alma individual, as três classes da sociedade, as três virtudes individuais e colectivas, bem como harmoniza os destinos das várias cidades.

A interpretação da Teoria das Ideias de Platão e, sobretudo, a caracterização destas, foi e é muito diversa. Podemos sintetizar o pensamento platónico sobre as ideias nos seguintes pontos:

> Se as coisas possuem atributos antitéticos, logo, o verdadeiro ser não pode estar nas coisas. As coisas do mundo sensível são e não são, pelo que é necessário que as ideias se dêem noutro mundo. A ideia platónica é uma espécie de conceito socrático com as características do Ser parmenidiano.

> São, por isso, caracterizadas pela unidade que as distingue de cada uma das outras ideias e da pluralidade do sensível. São imóveis, imutáveis, intemporais, injuradas, imperecíveis, perfeitas. Numa palavra, são entidades metafísicas, sumamente existentes, que constituem a autêntica realidade substantiva.

> São estruturas que permitem o conhecimento da realidade, critério de julgamento da realidade sensível. Para julgar se duas coisas são iguais, servimo-nos da ideia de igualdade. Da mesma forma, para julgar como junto, belo ou bom qualquer coisa, pessoa ou acção, servimo-nos igualmente da ideia correspondente.

> São modelos, paradigmas ou arquétipos das coisas sensíveis, preexistindo-lhes. São a essência das coisas, que reproduzem imperfeitamente como sua cópia, o seu modelo ideal. As coisas estão para as ideias como as sombras para os objectos (vide «alegoria de caverna»). São a região última das coisas e a finalidade e perfeição última a que se destinam.

> Para além de óbvia complexidade da questão, pode dizer-se que as ideias representam simultaneamente três funções; epistemológica – como objecto de conhecimento; lógica – como meio de organizar e tornar compreensível o mundo sensível; e ontológica – como causa ou razão de ser do sensível, constituído como sua imitação.

A acrescer a esta questão da natureza e função das ideias, há ainda outra a que ela se liga: qual a relação entre as ideas e as coisas e qual a hierarquia entre as próprias ideias? Esta temática, que Platão trabalhou incessantemente, sem nunca a ter concluído, tentou resolvê-la através do rosto de participação. No Sofista, Platão considera que uma ideia pode participar de outra ideia. Outra questão é a de saber de que coisas há ideia. Nos primeiros diálogos a questão não se punha, visto que se falava apenas de justiça, de virtude, etc., de tal forma que, a não existir uma justiça ou virtude em si, seria impossível qualificar uma acção como justa ou virtuosa sem cair no relativismo. No entanto, no Parménides, Platão alarga o problema, inquirindo porque não supor a existência de ideias para coisas vulgares como cabelo ou excremento. É evidente que a questão é complicada. Se cada coisa só é o que é na medida em que participa de uma ideia, dever-se-ia concluir que deveria haver tantas ideias quantas as classes de coisas fisicamente existentes, o que multiplicaria vertiginosamente a quantidade das ideias. A ideia não teria aqui sentido ético-valorativo ou matemático, mas referir-se-ia às próprias coisas, mesmo as mais baixas, o que parece difícil de aceitar.

Além disto, cada coisa participava de várias ideias (o conceito de comunidade: Sócrates é Sócrates porque participa da ideia de Sócrates, mas a ideia de Sócrates está em comunidade com a ideia de ser, de homem, etc.). Por outro lado, a unidade que define a ideia tem de se desmultiplicar e deixar de ser una, tornando-se múltipla no sensível, pois, a não ser assim (e Platão recusa a tese eleática de que o sensível seria o não-Ser), deixaria este abandonado a uma total ininteligibilidade. A unidade seria destruída, o que parece ser confirmado pela multiplicação das ideias até ao infinito, naquilo que é designado pelo «argumento do terceiro homem»: Se a pluralidade das coisas é unificada pela ideia, a unidade das coisas mais a ideia seria realizada por outra ideia, e assim até ao infinito.

Todas estas agonias levam Platão a supor, não só ideias mas classes de ideias, os géneros (Ser, igualdade, diferença, movimento e repouso), que dariam a chave de inteligibilidade do real. Mas se «do que é» se pode predicar o movimento e o repouso simultaneamente, então é necessário operar nova redução a três grandes géneros (Ser, igualdade e diferença). Este processo, que mostra como e quais as ideias que se superam e juntam, se posicionam hierarquicamente, é realizado no Parménides, no Sofista e no Tímon e levanta várias objecções, que o próprio Platão reconhece e que o levam a desenvolver, nas últimas obras, uma reformulação da teoria das Ideias num sentido de um menor realismo e naquilo que vulgarmente se chama a teoria das Ideias-número, expressa sobretudo nas Leis.

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