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A Teoria da Reminiscência

Ao contrário do que acontece em Sócrates, é o homem que elabora os conceitos, visto que estes preexistem à actividade da alma. A mimética converte-se assim em reminiscência, em anamnesis, uma recordação das Ideias que são relembrados se nos esforçarmos por nos libertar do sensível, do obstáculo que constitui o corpo, e realizarmos o esforço de uma conversão que nos permita a contemplação puramente espiritual, libertando-nos deste mundo de sombras em que nos encontramos encerrados (Cf. «alegoria de caverna»). Assim, a alma imortal, encerrada no corpo que é o seu túmulo, é impedida por este, através do esquecimento que esse encerramento impõe, de relembrar as ideias já anteriormente contempladas. Esta teoria recebe a influência órfico-pitagórica da metempsicose (transmigração das almas) e está expressa, por exemplo, no Ménon e no Fédon.

É possível, através de um interrogatório bem conduzido,que a alma adormecida recorde o que anteriormente conheceu. De facto, como poderíamos reconhecer como justa (ainda que de forma incorrecta e insuficiente) qualquer acção, se não tivéssemos uma ideia, ainda que vaga, de justiça. Como saber que encontrámos a justiça, se não a conhecíamos previamente? No fundo, só é possível caracterizar qualquer coisa através daquilo que já se sabia anteriormente. Como procurar saber se não se souber o que procuramos saber? O que importa (e esse é a função da dialéctica) é agora avivar essa vaga reminiscência, definir-lhe os contornos, eliminar as excrescências e o que lhe não pertence de direito, no sentido de relembrar finalmente, com plena nitidez, a ideia já contemplada, mas que o corpo, e o sensível em geral, tinham ocultado.

O sensível é o obstáculo epistemológico a eliminar, mas, pela sua semelhança com a Ideia (cf. Platão-doutrina II) o que foi dito acerca da teoria da participação e da função das Ideias), é o elemento que desencadeia a ascenção para o verdadeiro conhecimento. Este não é novidade, o «Conhece-te a ti mesmo» socrático é aqui descoberto dentro de nós, das Ideias que não são simples conceitos, definições criadas pelo homem através da sua razão, mas algo que, existindo real e independentemente do homem, deixou vestígios na sua alma num momento anterior.

O conhecer não é criativo, não inventa, é o trabalho de memória que descobre o que sempre existiu, simultaneamente em si mesmo e dentro da nossa alma.

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