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Platão situa-se numa linhagem intelectual que engloba Pitágoras, Parménides e Sócrates. As principais portas para a sua vida são a sua Carta VII, as informações dos neoplatónicos, de Aristóteles e de Diógenes Laércio.

Filho de Ariston, da melhor nobreza de Atenas (descendente do rei Codros e de Perictione, da família de Sólon), a sua família participou na Tirania dos 30, salientando-se na defesa de posições oligárquicas e da Tradição monárquica e conservadora. O nome próprio era Aristocles, sendo Platão a «alcunha» que teve origem na sua constituição física (o de fronte ampla ou de espáduas largas).

A sua formação foi clássica: ginástica, letras, retórica de uma certa sofística, interessando-se pela política e pelas vicissitudes de democracia ateniense. Discípulo do heracliteano Crátido, o encontro da sua vida foi Sócrates (por volta dos 18 anos), de cujo ensino deu testemunho nos seus escritos. A morte de Sócrates marcou-o profundamente (cf. Apologia, Críton, Fédon), embora não se encontrasse presente nesse momento, ou por estar doente (Fédon, 596), ou por ter ido a Megare, para junto de Euclides, com outros discípulos, a fim de se proteger de uma possível perseguição das autoridades atenienses. Entre 399 e 388 desempenhou várias funções militares e redigiu os primeiros diálogos chamados «Socráticos». Em 396 enceta as suas viagens, por exemplo, a tradicional e obrigatória viagem ao Egipto, onde terá tido contactos com sábios locais, a Cirene, à Magna Grécia e à Sicília.

Em 388, a convite do tirano de Siracusa, Dionísio, visita a Sicília pela primeira vez, satisfazendo simultaneamente o seu desejo de acção política e o contacto com outras escolas de Filosofia (os cirenaicos, o eleatismo, o misticismo e matematismo dos pitagóricos, etc.). Faz amizade com o cunhado do Tirano, Díon, e mostra simpatia pelo governo de Dionísio, que procura fim ao regime democrático e instaurara a monarquia. Várias intrigas e querelas obrigam-no a fugir numa viagem atribulada em que é feito escravo, sendo libertado em 387, após o seu regresso a Atenas.

Desistindo da política imediata, decide-se a preparar a juventude através da filosofia, onde se nota pela primeira vez a sua vocação de pedagogo. Para tal adquire um velho gymnasium na parte norte de Atenas e, nesses jardins de Academos, funda a Academia, que dispõe de um parque com alojamento para os discípulos, salas de aula, locais para a prática da arte e biblioteca. É a primeira escola de filosofia, no sentido propriamente institucional, aberta aos que a procuram do exterior, mas especialmente destinada aos discípulos que constituam o grupo interno. O lema da entrada era «Não entres esta porta se não és geómetra». O ensino surge da reflexão e arte dialógica, diferente por isso do Liceu aristotélico, mais científico, ou das escolas alexandrinas, mais didácticas na transmissão de um saber de professor a aluno, cuja função era limitada ao aprender. O método dialógico usado contrastava com o ensino retórico de Sócrates ou o predomínio do texto escrito do ensino sofístico. A Academia sofrerá sucessivas transformações até ser encerrada pelo imperador Justiniano I, em 529. É este o período dos «Grandes Diálogos», que promoveram as grandes interrogações sobre a política e a ética, o homem, o conhecimento e a realidade inteligível.

No ano de 367-366 a. C. regressa à Sicília com a intenção de promover uma reforma política através do seu discípulo Díon, junto do novo tirano, Dionísio, filho do outro Dionísio, o Antigo. As suas esperanças são goradas e é mandado regressar a Atenas. Em 361, nova viagem à Sicília e novo fracasso. É retido e libertado ao fim de várias solicitações. Em 357, é Díon que desembarca na Sicília e, após uma acerto militar, toma o poder com a intenção de se tornar o primeiro rei-filósofo ou filósofo-rei, sem no entanto seguir os preceitos da monarquia platónica, tornando-se um vulgar ditador, frustrando as expectativas de Platão e acabando por ser assassinado em 354 a. C.

Entretanto, Platão continua a sua obra na Academia e empreende a revisão ontológica de anterior doutrina. Ao pessimismo quanto à possibilidade de soluções políticas, contrapõe o optimismo de realidade ideal e feliz do inteligível.

Morreu em 348 ou 347 sem ter terminado as Leis. Deixou os seus bens ao único filho, Adimante e designou o sobrinho Espensipo como seu sucessor à frente da Academia. Os discípulos começaram então a organização dos diálogos e a estabelecer a sua classificação.

A obra platónica, à excepção da Apologia e das Cartas, foi toda escrita sob a forma de diálogo em que, salvo nas Leis, o interlocutor principal é Sócrates.

Para além das classificações e sistematizações (em tetralogias e trilogias) da Antiguidade, a crítica mais recente, baseando-se sobretudo na análise do estilo, do vocabulário e das doutrinas, permitiu eliminar alguns escritos apócrifos ou suspeitos, assinalar a autenticidade de outros, a cronologia e a periodização (dificuldades da chamada «questão platónica»), por exemplo, de 13 cartas a ele atribuídas e toda a polémica à sua volta.

Pode-se considerar o corpus platónico dividido em quatro géneros de diálogos, correspondentes a quatro fases, divisão que contudo não é pacífica e que conhece outras formulações:

1. Diálogo de juventude, em que a influência de Sócrates é mais evidente, por isso também chamados diálogos socráticos: Hípias Menor, Laques, Cármides Lísias, Entipron, Íon, Hípias Maior; o 1.º Alcibíades, Protágoras, 1.º Livro da República, bem como a Apologia e o Críton seriam anteriores à primeira viagem à Sicília.

2. Diálogos de Academia, que sistematizam a doutrina: Górgias, Ménon, Entidemo, Crátilo, Merexeno, em que se nota maior desenvoltura argumentativa, bem como a influência de temática pitagórica. No Banquete, no Fedro, no Fédon e na República surge o desenvolvimento da dialéctica e da teoria das ideias, a organização da cidade, o tema do Bem, e a questão da Alma. Todos os diálogos deste período são anteriores à segunda viagem à Sicília.

3. Após a segunda viagem à Sicília, e depois de vinte anos a leccionar na Academia, surgem os diálogos de revisão crítica da doutrina: a temática é ontológica, epistemológica e, nesta nova perspectiva, ética. Provavelmente influenciada por Aristóteles, esta revisão está presente no Parménides, Terteto, Sofista e Político.

4. Regresso à temática ético-política, com notória influência pitagórica, por via dos contactos durante as segunda e terceira viagens à Sicília, nas questões antropológica e cosmológica: Filebo, Críticas, Tímon e Leis.

Há, para além desta obra escrita, várias referências, que se iniciavam com Aristóteles, a uma doutrina que seria transmitida oralmente e que constituiria o ensinamento esotérico e iniciático da Academia. De pendor pitagórico, tal movimento metamorfoseou a doutrina dos números ideais na teoria das ideias que constituiria, deste modo, o seu aspecto exotérico.

Platão parte do método socrático, completando-o duplamente. Subjectivamente liberta-o de unilateralidade indutiva, tornando-o também instrumento do procedimento inverso, a dedução. Objectivamente, liberta-o de restrição da ética, dando-lhe uma formulação universal e metafísica. Desta forma ultrapassa a posição sofística, aproveitando o peso da filosofia pré-socrática, em particular de doutrina de Pitágoras e do conflito Parménides-Heraclito.

c. 428/7-c. 347/8 a. C.

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