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[a história do Ocidente é] dominada por duas heranças — a greco-latina e a judeo-cristã — , apresenta-se, no concernente ao Amor, como campo em que duas linhas de força — Eros e Ágape — surgem, se combatem, se aproximam, se distanciam. Eros é de origem predominantemente helénica; Ágape é de origem predominantemente bíblica. Eros, realidade humana e cósmica, traduzindo uma fundamental finitude, assume, quase desde os começos, tríplice função: unitiva, fruitiva, perfectiva. As duas primeiras aparecem em Homero (Eros é o desejo, ainda não personificado, que atrai Zeus e Hera, Ares e Afrodite, Páris e Helena), em Hesíodo (Eros é ao mais belo entre os deuses imortais que «doma os membros e a sábia vontade com universal domínio cósmico), nos líricos dos séculos VII e VI a. C. (Eros é, ora poderoso, intratável, cruel e súbito, ora brincalhão, belo e jovem — «amargo e doce», dirá Safo), na cerâmica, nas cosmogonias órficas em que Eros, segundo versões posteriores, se identifica, qual força geradora do mundo, com Phanes e com o próprio Zeus, nos primeiros filósofos: em Parménides (DK, 13 B) e em Empédocles (philótes: DK, 31 B 17, 35, 59) é princípio e raiz de atracção e coesão. A terceira função — perfectiva — sobretudo elaborada por Platão. Vindo depois de séculos de criação estética, aparecendo numa sociedade onde, por um lado, a tradição cultural e a reclusão da mulher levavam à prática, frequente, do amor dórico, grego ou efébico, numa sociedade onde, por outro lado, o movimento sofístico tinha chamado a atenção para o subjectivo do homem, o filósofo do Banquete e do Fedro estava em condições de, com o seu génio, sintetizando o melhor do passado, erguer uma teoria do Amor que ficasse para os séculos. O Eros platónico é filho de Póros (Engenho) e de Penía (Pobreza). Insuficiente por origem, ele é, por origem também, capaz de grandes realizações. Amor e beleza, amor e bondade, amor e unidade correspondem-se e postulam-se. Habitante de um universo em que o mundo sensível é imagem do mundo inteligível, a alma humana, parente das Ideias e sede do Amor, enquanto vive exilada no corpo, aspira a reunir-se ao seu princípio. A ascensão começa com um acto irracional (manía) que a aliena de si. Essa alienação conduz a uma de duas atitudes: ou à fixação no terrestre e no sensorial como num absoluto (Afrodite vulgar), ou à exigência de ir mais longe, à fonte donde toda a beleza procede (Afrodite celeste). Amor e conhecimento encontram-se, assim, em Platão, tão intimamente ligados que nele o intelectualismo é erotismo e o erotismo é intelectualismo. Depois dele, os dois caracteres de Eros — o sensual e o místico — irão acentuar-se até à exasperação na última fase da cultura clássica. Durante a era helenística, popularizam-se os aspectos anacreônticos do amor através da poesia e das artes plásticas, exalta-se a paixão da alma e o realismo corpóreo. Mais tarde, com Plotino, é a fuga da alma para fora e acima do corpo, é a tentativa de união, pelo êxtase, do espírito humano com o Uno.
Manuel Antunes, Enciclopédia Verbo – Século XXI, vol. 2, Lisboa, 1998-2003.

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