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4322-39

Édipo Rei (excerto)

O MENSAGEIRO – Vamos, fala; lembras-te de me ter dado um menino para eu criar como se fosse meu?

O SERVO – Que há? porque me interrogas assim?

O MENSAGEIRO – Eis aqui, amigo, o menino desse tempo.

O SERVO – Que desgraça vais provocar! Vê se te calas!

ÉDIPO – Não censures este homem velho! São as tuas palavras, não as dele, que merecem repreensão.

O SERVO – Em que errei eu, Senhor?

ÉDIPO – Em não dizeres nada do menino de que ele fala.

O SERVO – Fala às cegas e é inútil tanta preocupação.

ÉDIPO – Pois falarás a bem ou a mal.

O SERVO – Pelos deuses te rogo, Senhor! Não batas num velho!

ÉDIPO – Atem-lhe já as mãos atrás das costas!

O SERVO – Ai de mim! Que desgraçado sou! E porquê? Que queres tu saber?

ÉDIPO – Deste-lhe essa criança a que se refere?

O SERVO – Dei-lha, na verdade. Oxalá os deuses me tivessem matado nesse dia!

ÉDIPO – É o que te vai acontecer, se não disseres a verdade.

O SERVO – Mais cedo morrerei se falar.

ÉDIPO – Parece-me que este homem só procura ganhar tempo.

O SERVO – Não, Senhor. Já disse que lha tinha dado.

ÉDIPO – Onde a foste buscar? Era tua ou de outrem?

O SERVO – Não era minha; tinha-a recebido de alguém.

ÉDIPO – De que cidadão? De que casa?

O SERVO – Pelos deuses, Senhor! Não perguntes mais!

ÉDIPO – Se tenho de repetir a pergunta, mato-te.

O SERVO – Pois bem! Era um menino do palácio de Laio.

ÉDIPO – Era um escravo ou mesmo da família da Laio?

O SERVO – Ó deuses! É a coisa mais horrível para mim!

ÉDIPO – E para mim também, mas tenho de ouvi-la.

O SERVO – Dizia-se que era filho de Laio. Mas tua mulher que está no palácio poderá explicar-te muito melhor como tudo se passou.

ÉDIPO – Foi ela própria que te entregou a criança?

O SERVO – Foi ela, ó Rei.

ÉDIPO – Com que intenção?

O SERVO – Para eu a matar.

ÉDIPO – Ela! A mãe! Ó desgraçada!

O SERVO – Temia oráculos terríveis!

ÉDIPO – Que oráculos?

O SERVO – Estava predestinado que mataria seus pais.

ÉDIPO – Porque a deste a este velho?

O SERVO – Tive pena, Senhor. Julguei que levaria a criança para terras estranhas: mas salvou-a para grandes desgraças. Se tu és o mesmo, fica sabendo que és bem infeliz.

ÉDIPO – Ai de mim! Ai de mim! Tudo é claro agora! Ó luz do dia, vejo-te pela última vez, eu que nasci de quem não devia nascer, e me casei com quem não devia casar-me, e matei quem não devia matar!

(Reentra no palácio)

O CORO – Ó geração dos mortais, a vossa vida nada é a meus olhos. A maior felicidade para um homem é a de parecer feliz e de logo morrer. Vejo o teu destino, a tua sorte, infeliz Édipo, e afirmo que nada há de ditoso para os mortais.

Levaste o teu desejo além de tudo e couberam-te esplêndidas riquezas. Dominaste a Profetisa, a Virgem das garras recurvadas, e foste, por Zeus, muralha da pátria, a defesa dos cidadãos contra a morte; fizeram-te rei, revestiram-te de altíssimas honras e és o chefe da grande Tebas.

E agora, se bem compreendemos, quem é mais desgraçado do que tu? A quem lançaram as mudanças da vida em desastres mais terríveis? Ó Édipo ilustre, a quem bastou uma só mulher para seres filho e marido, como pôde a esposa de teu pai suportar-te em silêncio durante tanto tempo?

Mas esse mesmo tempo, que tudo vê, tudo te revelou contra vontade tua, e condena as núpcias abomináveis que te fizeram pai e filho. Ó filho de Laio, oxalá nunca te tivesse visto, porque bem te lamento. Mas a verdade, sempre a direi: foi por ti que respirei, foi por ti que pude adormecer.

Tradução de Agostinho da Silva (Editorial Inquérito, Lisboa, 3ª ed., s/d).

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