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4322-20
Escreveu um dia Gerardo Mello Mourão que os poetas «falam o dialecto morto da grandeza humana, como se não tivessem saído da eternidade senão para uma breve estada na terra» (1). Nenhum epitáfio se lhe ajustaria melhor.
Nascido em Ipueiras, no Ceará, na sua voz de poeta ficou para sempre um travo a sangue nordestino, sangue de família, sangue fundador, hereditário e transatlântico, engrossado na lenda dos antepassados e de seus feitos ferozes e líricos. Um constante sopro genealógico atravessa os seus grandes poemas épicos, um sopro em que se confundem as linhagens do homem, do país, do continente, mas também de uma cultura que viajou, multiforme, no tempo, desde a Grécia, contemporânea da epopeia e dos deuses. Como Goethe notou, e Unamuno depois dele repetiu, ser original é pertencer a uma origem.
Há em Gerardo, notou Tristão de Athayde (2), uma «euforia helénica», que surge de modo mais evidente na trilogia Os Peãs – constituída por O País dos Mourões (1963), Peripécia de Gerardo (1972) e Rastro de Apolo (1977) – que não se traduz, em caso nenhum, em qualquer tentativa de exumar o gosto neoclássico do decalque e da alusão espúria. Acontece apenas que «a poesia é a arte da ressurreição» (3) e na épica peculiar de Gerardo ressuscitam «Homero/ Virgílio, Camões e o Dante» (4), apadrinhando, por assim dizer, a narração da saga do clã – o quinhão individual nela sempre liricamente infuso – como parte da invenção da história americana e brasileira, e a reinvenção de ambas na ordem cósmica.
É bom notar, no entanto, que o apelo do universo clássico e o apego à reminiscência das origens civilizacionais atravessa toda a poesia de Gerardo e não apenas os poemas de pendor épico (veja-se, por exemplo, a sequência intitulada «Nascimento dos Deuses» (5)), cujo DNA se revela sempre empapado de lirismo. O inverso também é verdadeiro: na lírica gerardiana há, ainda que apenas esboçado, um impulso narrativo, como é notório em «Suíte do Couro» (6) – cujos versos elegíacos emanam de mistérios fonéticos, luminosos e cromáticos (7) – ou nos três extraordinários poemas «The Waste Breothels» (8).
Em Invenção do Mar (1997, Prémio Jabuti; edição portuguesa de 1998) Gerardo Mello Mourão logrou recriar poeticamente não a história lusa, mas o fôlego camoniano dela na gestação de um novo mundo: «Raça do mar, gerados pelas ondas/ com as raças da terra e de outras terras/ iam gerando sua nova raça.» (9). Aqui a invenção do mar é uma invenção do homem, como aliás o é também a invenção do saber: uma rebelião contra a ordem estabelecida, gesto que mergulha as raízes num «denso espaço de mistérios» (10), no tempo mítico que precede a história e a ela preside: «O mito gera a lenda, a lenda gera o herói/ e só o herói pode gerar a história/ e a história é fruto e flor da lenda» (11).
Se a poesia é o fundamento da história, o poeta-inventor assume o herdado ofício de «fazer pátria» (12), «destas heranças lavro um inventário/ e guardo um mar que é meu e a minha terra/ e a língua bela em que as estrelas cantam», e canta o anúncio de «um achamento que não cessa» (13).
Mas a realidade do poema são as palavras, e essas acodem em singular floração. A língua poética de Gerardo, a inventiva da sua «dislexia criadora» (14), tem a pátina da língua de Camões e de Bernardes, a lucidez iterativa e oracular do puro nome, os timbres sonoros de ásias, áfricas e américas, os sabores e os cheiros de uma civilização de civilizações: «E vieram o agrião o alecrim o cravo a arruda a canela/ e o tomilho e a manjerona e os limões da Galícia/ o orégano e o manjericão-de-cheiro/ o açafrão a malagueta a acelga os nabos o ápio/ o gengibre o alho e a cebola e o coentro e as finas ervas/ e o sal para salgar a carne das caças e dos peixes.» (15).
Esta poesia, polifónica no processo de construção e na ampla sonoridade, canta e convoca, incorpora e remete, religa e rediz numa língua única de sabor e de saber. A música, já presente nos arquétipos da Poesia, inscreve-se intimamente na matriz poética de Gerardo, e contamina a própria matéria-prima da história: «Ai táboas que foram verdes/ tão táboas para fragatas/ tão táboas para guitarras.» (16)
A música é um elemento sempre presente, quer na grande música orquestral e coral (peã ou peane designa um cântico de alegria e louvor dos deuses), quer na lira do apontamento, música de câmara. Não por acaso, os livros onde Gerardo recolheu colecções de poemas têm títulos como Três Pavanas (1961), Cânon e Fuga (1961) e Algumas Partituras (2002). Aí encontramos a música em vários estados: no estado sólido das palavras e dos ritmos e no estado etéreo das mulheres, elas ritmos também, «desenho eterno e vão/ desse meneio entre artelhos e ancas.» (17)
Este poeta pertence certamente a uma estirpe bem determinada: «há uma raça dos homens/ e uma raça dos deuses/ e a raça dos que tocam/ pelos bosques dos homens/ a música dos deuses» (18). Fiel à lição de Camões, na letra e no corpo, pretendeu-se «poeta sem endereço» e sem profissão, «até porque a ocupação de ser e existir, o exercício e os trabalhos do amor não dão tempo a nenhuma outra profissão»19. O paralelo poderia ser levado mais longe: conheceu a prisão e o exílio, ganhou países em incontáveis viagens e sofreu o fascínio do Oriente.
Gerardo cresceu e fez-se homem naquela vasta terra onde «a casa de cada um se erguia do barro virgem/ em praças quadradas/ e no meio da praça uma casa maior// era a casa de Deus,/ habitante principal/ das cidades e vilas semeadas» (20) – aos onze anos entrou na Congregação dos Padres Redentoristas de onde saiu apenas pouco tempo antes de tomar votos. Desde cedo familiarizado com a poesia, no início da década de 1940 repudiou a escrita juvenil para, com um pequeno grupo de amigos argentinos e brasileiros («La Santa Hermandad Orquídea»), se colocar a tremenda exigência: «Ou Dante ou nada». Afirmará mais tarde ignorar se algum deles atingira o objectivo, mas veio a aprender «amadurecido no orgulho e na humildade, que a poesia é mais importante que o poema» (21), tal não implicando que tenha descurado a fábrica dos seus versos.

Outras obras, para além das citadas: Cabo das Tormentas (poesia, 1950), O Valete de Espadas (romance, 1960),Piero della Francesca ou As Vizinhas Chilenas (contos, 1979), Dossiê da Destruição (romance, 1967), Susana – 3 (poesia, 1996-1997), Um Senador de Pernambuco (memória, 1999), O Bêbado de Deus (biografia, 2001), Os Olhos do Gato & O Retoque Inacabado (2002).

Ipueiras, 1917 – Rio de Janeiro, 2007

Notas:
1 «Invenção do Saber», em A Invenção do Saber (1990).
2 «Entre Dois Rastros», publicado no final de Rastro de Apolo, em Os Peãs (4.ª ed., 1986).
3 Textos introdutórios de Invenção do Mar (1997).
4 Versos colhidos na terceira elegia da «Suíte do Couro», em Algumas Partituras (2002)
5 Em Cânon & Fuga (1999).
6 Em Algumas Partituras.
7 Reminiscência de uma observação de Efraín Tomás Bó, grande amigo de Gerardo.
8 Em Cânon & Fuga.
9 Invenção do Mar, Canto Terceiro, VIII.
10 Em A Invenção do Saber.
11 Invenção do Mar, Canto Sexto, VII.
12 ibidem, Canto Quinto, IX.
13 ibidem, Canto Terceiro, IX.
14 Textos introdutórios de Invenção do Mar.
15 Invenção do Mar, Canto Quarto, I.
16 ibidem, Canto Primeiro, I.
17 «Dezoito Exercícios», em Cânone & Fuga.
18 Em Peripécia de Gerardo, Os Peãs (4.ª ed., 1986).
19 Da nota biográfica publicada em alguns livros de Gerardo Mello Mourão.
20 Invenção do Mar, Canto Quarto, I.
21 Da nota biográfica.

Invenção do Mar: Painel com Gerardo Mello Mourão
Denúncia da ditadura militar instaurada em 1964.

O País dos Mourões (texto integral)
Peripécia de Gerardo (texto integral)
Rastro de Apolo (texto integral)
Susana (texto integral)
Três Pavanas (texto integral)

TRAVESSA DAS ISABÉIS

Travessa das Isabéis
Entre pedras e azulejos
Modulam Lisboa à noite
Seus corpos de realejos
A lua desce a ladeira
E cobre as pedras de beijos
Ó lua de Portugal
De seus Tejos e Alentejos.

Vi todas as Isabéis
Sem ver Isabel alguma
Na ladeira fui contando
As pedras uma por uma

Tinha os olhos nas janelas
E pedra a pedra subia
Travessa das Isabéis
Quantas Isabéis havia?

De seu sobrado amarelo
O cônsul francês sorria:
A cada Isabel que olhava
Era outra que aparecia

De sua janela verde
Uma Isabel nos espia
Outra Isabel no balcão
Acenava e me dizia
Que tantas quantas quisesse
Eram as Isabéis que havia:
Cada qual a mais bonita
Olhos negros olhos verdes
olhos de azul ou de mel
Cada qual mais portuguesa
Cada qual mais Isabel
Os olhos no doce rosto
Eram mais doces que o mel
Debaixo das sobrancelhas
Duas uvas moscatel
Na guitarra das cinturas
Quero ser vosso segrel
Sois balada e serenata
Nas cordas do menestrel.

Às oito horas da noite
Se abriram vinte janelas
Cem Isabéis me acenaram
Do alto de todas elas

Às oito horas da noite
São cinco em cada balcão
Tomam seu banho de lua
Cheirando a manjericão

Ou cheiro a flor de laranja
Ou de alfazema dos campos,
Boa noite – me murmuram
Seus olhos de pirilampos

Não sei quantas eram ruivas
Quantas louras e morenas
Trigueiras, claras, castanhas,
Risonhas, sérias, serenas,

Pois eram cem raparigas
Do primeiro ao quarto andar,
E começavam a rir
E eu começava a chorar –
Tão longe de minhas mãos
Tão perto de meu olhar –

Uma viola perdida
Cantava as meninas belas
E devagar uma a uma
Se fechavam as janelas
Não sei se era a mão da lua
Ou se seria a mão delas –

Na ladeira um anjo bêbado
Me perguntava por elas
E nas varandas, ausentes,
Apareciam mais belas

Lisboa, boca da noite
aloendros e água-mel:
Cada qual mais portuguesa
Cada qual mais Isabel.

Lisboa – botequim na esquina da Travessa das Isabéis

em Cânon e Fuga

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