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Poeta português inicialmente próximo de um surrealismo moderado, mas que, posteriormente, evoluiu do subjectivismo para a descrição da pura objectividade. A sua poesia — de poeta a tempo inteiro — revela um estilo sóbrio, de grande nitidez, aliado a grande riqueza e originalidade de imagens visuais e tácteis. Na síntese de Cristina Almeida Ribeiro, «Após uma fase de aproximação ao mundo quotidiano António Ramos Rosa acabou por
enveredar pelos caminhos da indagação do eu e do mundo, a busca incessante de um conhecimento que incessantemente se furta e a que só na linguagem e pela linguagem entende poder aceder. (…) Senhor de uma escrita despojada, que no despojamento encontra, paradoxalmente, a expressão maior da sua complexidade
(…)». Essa «nudez estilística», na expressão de L. Silva Pereira, constitui um «caminho para a reafirmação e recuperação da realidade, manifestando a urgência, típica da modernidade, de uma nova percepção, sempre inacabada e agónica, do eu e das coisas. Torna-se necessário formular uma nova ontologia, reaprender de novo a materialidade do mundo não através de uma teoria, mas através da fusão com ele, como se homem e realidade material fossem uma só verdade, mas de natureza sensorial.»
António Ramos Rosa foi também ensaísta, cuja extrema relevância está bem presente na obra A Poesia Moderna e a Interrogação do Real (2 vols., 1979).
Entre muitas outras distinções que recebeu, refiram-se o Prémio Pessoa (1988), o Grande Prémio de Poesia da APE (1989) e o Prémio Europeu de Poesia (1991).

Faro, 1924 – Lisboa, 2013

Alguns títulos
POESIA
O Grito Claro (1958)
Viagem Através de uma Nebulosa (1960)
Voz Inicial (1961)
Sobre o Rosto da Terra (1961)
Ocupação do Espaço (1963)
Estou vivo e escrevo sol (1966)
Ciclo do Cavalo (1975)
Boca Incompleta (1977)
Incêndio dos Aspectos (1980)
Declives (1980)
Incerto Exacto (1982)
Quando o Inexorável (1983)
Clareiras (1986)
Livro da Ignorância (1988)
No Calcanhar do Vento (1988)
Três Lições Materiais (1989)
Acordes (1989)
O Não e o Sim (1990)
Facilidade do Ar (1990)
A Intacta Ferida (1991)
Oásis Branco (1991)
Lâmpadas com Alguns Insectos (1993)
O Teu Rosto (1994)
À Mesa do Vento seguido de As Espirais de Dioniso (1997)
A Imobilidade Fulminante (1998)
A Imagem e o Desejo (1998)
Pátria Soberana seguido de Nova Ficção (1999)
O Princípio da Água (1999)
Deambulações Oblíquas (2000)
O Aprendiz Secreto (2000)
Alvor do Mundo (2001)
Génese seguido de Constelações (2005 )
Horizonte a Ocidente (2007)
Rosa Intacta (2007)

ENSAIO
Poesia, Liberdade Livre (1962)
Incisões Oblíquas (1987)
A Parede Azul (1991)

Bibliografia completa (e outras informações) aqui.

TRÊS POEMAS

De escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
de um grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro
Viagem através de uma nebulosa (1960)


C
avalo, cavalo da terra, saltas sobre
toda a pobreza chã ou obstáculo.
O vigor da palavra é evidência acesa
é saber-te do chão até à crina.
Quem te arranca a força de raiz
em que vale te cavam ou te calam,
de perfil ou de fronte és cavalo sempre,
cavalo de sempre.

O teu nome é uma parede que nos fala
sobre o teu silêncio. E é um nome
que não se excede e horizontal se lê,
a prumo.
Ciclo do cavalo (1975)

Nada sabemos de quase tudo  A vastidão
é inapreensível A simultaneidade
é inapreensível A disparidade
é inapreensível E há um mutismo
no mundo e em nós que não se quebra nunca
Na página há um silêncio inexpugnável
Talvez algo queira correr e dissipar-se
na correnteza da água Talvez um outro espaço
mesmo na ignorância possa ser a transparência
Mas longe é tudo e vagaroso e recolhido
Não progredimos na grande solidão que envolve tudo
Ouvi-la? É quase deslumbrante e de uma
densa tranquilidade que em nós demora
como se em nós houvesse correspondência
Ou não somos nós que criamos o entendimento
que une as sombras que somos ao sossegado império
que é tudo e nada no seu mudo esplendor?
Somos nós e é o mundo que cria a substância
de estar em que nada se abre e todavia se abre
nas corolas de sono e no timbre da luz.
O Livro da Ignorância (1988)

Poemas ditos
Não posso adiar o amor
Um caminho de palavras
Da grande página aberta do teu corpo
Poema de um funcionário cansado

António Pinho Vargas: Nove Canções de António Ramos Rosa

 

 

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