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Poeta, ficcionista e tradutor, figura de relevo da cultura portuguesa, também conhecido pela sua intervenção na vida pública, quer pelos cargos que tem desempenhado, quer como assíduo comentarista de assuntos culturais e políticos, quer como deputado europeu pelo Partido Social-Democrata (1999-2009). Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, além de ter desempenhado funções governativas no IV e VI Governos Provisórios, foi director da RTP2 (1978), administrador da Imprensa Nacional (1979-1989), comissário-geral de Portugal para a Exposição Universal de Sevilha (1988-1992), presidente da Comissão Executiva para as Comemorações do Centenário de Fernando Pessoa (1988), comissário-geral para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (1988-1995), director da Fundação Casa de Mateus, director do Serviço de Bibliotecas da Fundação Calouste Gulbenkian (1996-1999). É desde 2012 presidente do Centro Cultural de Belém.
A sua poesia é claramente marcada por um assumido culturalismo, navegando por entre múltiplas alusões, em que a ironia dá a medida do lúdico, sem que este absorva totalmente um lado de meditação subtil e de memória afectiva. Disse (1999) Fernando Pinto do Amaral que «a poesia de VGM revisita igualmente, sob um olhar culto, melancólico ou blasé, as relações entre a escrita e artes  como a pintura e a música, mantendo-se hipersensível a uma ampla diversidade de estímulos comunicados quase a “meia-voz”, com sobriedade e subtileza, e compondo uma densa partitura em que participa também um lastro feito de memórias biográficas por vezes amorosas ou familiares, embora sempre obedecendo a um lúcido e resignado sentido do efémero e do circunstancial».
Mas o engenho poético (e a erudição, o génio linguístico, a bravura métrica) de Vasco Graça Moura é particularmente posto à prova — com notável êxito — nas traduções que tem vindo a realizar (entre outros, de Shakespeare, Rilke, Gottfried Benn, Villon, Dante, Ronsard, Petrarca, Racine) e que constituem um monumento único no universo cultural português.
Na ficção, por vezes mais até do que na poesia, há uma forte relação com a tessitura musical e as suas surpresas, e uma grande limpidez de escrita. No ensaísmo, destacam-se estudos camonianos inovadores, mas também os trabalhos sobre David Mourão-Ferreira e Vitorino Nemésio. Autor de numerosos prefácios, apresentações e estudos introdutórios, também conferencista, tem publicado antologias temáticas de poesia e prosa. Autor ainda de Os Lusíadas para gente nova. Incansável adversário do Acordo Ortográfico, tem liderado com saber e persistência o movimento cívico que exige a sua revogação.

Foz do Douro, Porto, 1942 – Lisboa, 2014

Obras
Modo Mudando (poesia, 1963)
Semana Inglesa (poesia, 1965)
Quatro sextinas (poesia, 1973)
O Mês de Dezembro e Outros Poemas (poesia, 1977)
Recitativos (poesia, 1977)
Sequências regulares (poesia, 1978)
Instrumentos para a Melancolia (poesia, 1980)
A variação dos semestres deste ano, 365 versos, seguido de A escola de Frankfurt (poesia, 1981)
Nó cego, o regresso (poesia, 1982)
Caderno de Olhares (poesia, 1983)
Os Rostos Comunicantes (poesia, 1984)
A Sombra das Figuras (poesia, 1985)
A Furiosa Paixão pelo Tangível (poesia, 1987)
O Concerto Campestre (poesia, 1993)
Sonetos Familiares (poesia, 1994)
Uma Carta no Inverno (poesia, 1997)
Poemas com Pessoas (poesia, 1997)
Letras do Fado Vulgar (poesia, 1998)
O retrato de Francisca Matroco e outros poemas (poesia, 1998)
Sombras com Aquiles e Pentesileia (poesia, 1999)
Nó cego, o regresso (poesia, 2000)
Testamento de VGM (poesia, 2001)
Antologia dos sessenta anos (poesia, 2002)
Variações Metálicas (poesia, 2004)
Laocoonte, Rimas Várias, Andamentos Graves (poesia, 2005)
O Caderno da Casa das Nuvens (poesia, 2010)
Poesia Reunida, 2 vols., 1962-1997/1997-2010, (2012)

50 sonetos de Shakespeare (tradução, 1978)
23 poemas de H.M. Enzensberger (tradução, 1980)
21 poetas suecos (em colab., tradução, 1981)
50 poemas de Gottfried Benn (tradução, 1982)
Poemas de Gunnar Ekelof (em colab., tradução, 1992)
Os sonetos a Orfeu de Rainer Maria Rilke (tradução, 1994)
A Vita Nuova de Dante Alighieri (tradução, 1995)
A Divina Comédia de Dante Alighieri (tradução, 1995)
Os amorosos e outros poemas, de Jaime Sabines (tradução, 1996)
Os testamentos de François Villon e outras baladas mais (tradução, 1997)
Poemas de Seamus Heaney (tradução, 1998)
García Lorca: o romanceiro e o pranto (tradução, 1998)
Os sonetos de Walter Benjamin (tradução, 1999)
Os sonetos de Shakespeare (tradução, 2002)
Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke (tradução, 2002)
Alguns amores de Ronsard (tradução, 2003)
As rimas de Petrarca (tradução, 2003)
Rilke, Carrossel e outros poemas (tradução, 2004)
Os Triunfos de Petrarca (tradução, 2004)
O poema sobre o desastre de Lisboa de Voltaire (tradução, 2005)
Berenice, de Racine (tradução, 2005)
Fedra, de Racine (tradução, 2005)
Andrómaca, de Racine (tradução, 2006)
O Misantropo, de Molière (tradução, 2007)
Cyrano de Bergerac/ Edmond de Rostand (tradução, 2007)
O Cid, de Pierre Corneille (tradução, 2008)

Quatro Últimas Canções (romance, 1987)
Naufrágio de Sepúlveda (romance, 1988)
Partida de Sofonisba às Seis e Doze da Manhã (romance, 1993)
A Morte de Ninguém (romance, 1998)
Meu Amor, Era de Noite (romance, 2001)
O Enigma de Zulmira (romance, 2002)
Por Detrás da Magnólia (romance, 2004)
O Pequeno-Almoço do Sargento Beauchamp (romance, 2008)
Alfreda ou a Quimera (romance, 2008)
Morte no Retrovisor (ficções, 2008)
O Mestre de Música (romance, 2010)
Os Desmandos de Violante (romance, 2011)

Ronda dos meninos expostos (teatro, 1987)
Auto de Mofino Mendes (teatro, 1994)

David Mourão-Ferreira ou a Mestria de Eros (ensaio, 1978)
Herculano poeta (ensaio, 1978)
Nemésio: o lance do verbo (ensaio, 1980)
Luís de Camões: alguns desafios (ensaio, 1980)
José Rodrigues e as armadilhas miméticas (ensaio, 1980)
Caderno de olhares (ensaio, 1983)
Camões e a Divina Proporção (ensaio, 1985)
Os Penhascos e a Serpente e Outros Ensaios Camonianos (ensaio, 1987)
Várias Vozes (ensaio, 1987)
Fernão Gomes e o Retrato de Camões (ensaio, com Vítor Serrão, 1989)
Cristóvão Colombo e A Floresta das Asneiras (ensaio, 1991)
O Tratado de Tordesilhas (ensaio, 1994)
Retrato de Isabel e Outras Tentativas (ensaio, 1994)
O despertar da pintora: uma incursão (sobre Graça Morais, ensaio, 1997)
Damião de Góis e o Livro de Horas dito de D. Manuel (ensaio, 1999)
Sobre Camões, Gândavo e Outras Personagens (ensaio, 2000)
Adamastor, nomen gigantis (ensaio, 2000)
Figuras em Mateus (ensaio, 2002)
Lusitana praia: ensaios e anotações (ensaio, 2005)
Acordo Ortográfico: as perspectivas do desastre (ensaio, 2008)
Diálogo com (Algumas) Imagens (ensaio, 2009)
Discursos Vários Poéticos (ensaio, 2013)
A Identidade Cultural Europeia (ensaio, 2013)

Papéis de jornal: crónicas e outros materiais (crónica, 1997)
Contra Bernardo Soares e Outras Observações (crónica, 1999)

Circunstâncias vividas (memórias, 1995)
Páginas do Porto (memórias, 2001)

Prémio de Poesia do PEN Clube (1994)
Prémio Pessoa (1995)
Grande Prémio de tradução do PEN Clube (1996)
Medalha de Ouro de Florença (1997)
Grande Prémio de Poesia da APE (1998)
Coroa de Ouro do Festival Internacional de Struga (2004)
Grande Prémio de Romance e Novela da APE (2004)
Prémio Internazionale Diego Valleri (2004)
Prémio Paulo Quintela, da Universidade de Coimbra (2006)
Prémio Vergílio Ferreira, da Universidade de Évora (2007)
Prix Max Jacob Étranger (2007)
Premio Nazionale di Traduzione italiano (2008)
Grã-Cruz da Ordem de Santiago de Espada (2014)

Entrevista à Antena 1 nos 50 anos de vida literária.
50 anos de vida literária no Grémio Literário (14.2.2013).
Encontro com Vasco Graça Moura na FNAC Chiado em 29.4.2013.

TRÊS POEMAS DE VASCO GRAÇA MOURA

lamento para a língua portuguesa

não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade,
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
mas cá e lá do que eras tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
de violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tal degradação tão mais feliz
que o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de haver milhões que te uivam triunfantes
na raiva e na oração, no amor, no grito
de desespero, mas foi noutro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste, eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.

fanny

fanny, a grande
amiga de minha mãe,
ossuda, esgalgada,
de cabelo escuro e curto,
e filha de uma inglesa,

tinha um sentido prático
extraordinário e era
muito emancipada, para
os costumes da foz
daquele tempo.

uma vez, estando
sozinha no cinema, sentiu
a mão do homem a
seu lado deslizar-lhe
pela coxa. prestou-se a isso e

deixou-a estar assim,
com toda a placidez. mas abriu
discretamente a carteira de pelica,
tirou a tesourinha das unhas
e quando a mão no escuro

se imobilizou mais tépida,
apunhalou-a num gesto
seco, enérgico, cirúrgico.
o homem deu um salto
por sobre os assentos e

fugiu num súbito
relincho da
mão furada.
fanny foi sempre
de um grande despacho,

na sua solidão muito
ocupada num escritório. um dia
atirou-se da janela
do quinto andar
e pronto.

lamento por diotima

o que vamos fazer amanhã
neste caso de amor desesperado?
ouvir música romântica
ou trepar pelas paredes acima?

amarfanhar-nos numa cadeira
ou ficar fixamente diante
de um copo de vinho ou de uma ravina?
o que vamos fazer amanhã

que não seja um ajuste de contas?
o que vamos fazer amanhã
do que mais se sonhou ou morreu?
numa esquina talvez te atropelem,

num relvado talvez me fusilem
o teu corpo talvez seja meu,
mas que vamos fazer amanhã
entre as árvores e a solidão?

One thought on “Vasco Graça Moura

  1. Pingback: “O que nos precede, explica-nos” | Porto Envolto. Por Vera Dantas

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