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Antropólogo, escritor e realizador de cinema angolano, de origem portuguesa. Em Angola, exerceu a profissão de regente agrícola na década de 60, quer na área da cultura do café quer na da criação de ovinos, antes de iniciar a sua incursão no campo do documentário etnológico para a televisão angolana: Uma Festa para Viver, Como Foi, Como não Foi (1976), É a Vez da Voz do Povo (1977), Presente Angolano/Tempo Mumuíla (1979), Balanço do Tempo na Cena de Angola (1982), dirigindo também duas longas-metragens: Nelisita, narrativas nyaneka (1982, com que obteve o diploma da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris) e Moia: o Recado das Ilhas (1989). Ver outros filmes aqui.
Doutorado (1986) em Antropologia e Etnologia (na EAECS de Paris), com uma tese intitulada Ana a Manda, os Filhos da Rede, publicada em 1989, ano em que foi distinguido como o Prémio Nacional de Literatura de Angola.
Em 1972 publicara Chão de Oferta (1972), livro de poesia que, segundo Pires Laranjeira (1995) «se agiganta pela capacidade da metáfora telúrica, como que mineral, de uma linguagem trabalhada em filigrana, sugerindo a micropaisagem e o cosmo avassalador». Foi professor de Antropologia nas universidades de Luanda, São Paulo e Coimbra, sem abandonar nunca o trabalho de campo, sobretudo no sudoeste de Angola e noroeste da Namíbia.
Prosador forte e ficcionista arguto, cruzando registos e realidades, é na opinião de António Mega Ferreira «um escritor extraordinário, absolutamente extraordinário» e «um dos maiores da língua portuguesa».

Santarém, 1941 – Swakopmund, Namíbia, 2010

POESIA
A Decisão da Idade (1976)
Exercícios de Crueldade (1978)
Sinais misteriosos… já se vê (1978)
Ondula, Savana Branca (1982)
Lavra Paralela (1987)
Hábito da Terra (1988)
Ordem do esquecimento (1997)
Observação directa (2000)
Lavra, poesia reunida 1972-2000 (2005)

PROSA
Como se o mundo não tivesse Leste (ficção, 1977)
Vou lá visitar pastores (1999)
Os papéis do inglês (ficção, 2000)
Os Kuvale na História, nas Guerras e nas Crises (2002)
Actas da Maianga
… dizer da(s) guerra(s) em Angola… (2003)
Paisagens propícias (ficção, 2005)
Desmedida. Luanda – São Paulo -São Francisco e volta (2006)
a câmara, a escrita e a coisa dita… fitas textos e palestras (2008)
A Terceira Metade (ficção, 2009)

Discurso autobiográfico.
Ruy Duarte de Carvalho em breves imagens e palavras
Ruy 1941-2010
Paisagens Propícias – espectáculo de dança que vai beber a Ruy Duarte de Carvalho (2013)

EXCERTO

«Chegámos à Pedra do Tambor, onde pernoitaríamos antes de atravessar o Kuroka e entrar no parque na manhã seguinte, já a noite vinha vindo. Com ela a aragem fria de uma brisa rasteira. É aquela hora que arrepanha a alma e é sempre breve, mas bastante, assim. É a hora que estrangula a digestão das horas, o programa das rotas, a ordem das tarefas, o compromisso, a lei. A incidência derradeira daquela luz directa recolhi-a de costas para o poente, a ver estender-se a sombra da pedra a que encostava, a da margem de espinheiras que acompanhava o curso de um declive que de outra forma não se anunciava, o reflexo, àquela hora, do ocre dessas ilhas, cónicos puzzles de blocos de granito, acumulados juntos e a formar alturas, a emergir do mar dos pastos, vastos, vastos, do lençol do chão, e a púrpura difusa de uma curva da escarpa, muito mais ao longe, a leste, altitude de platôs, matriz de migrações. E vinha também a lua. É disto que se faz a emoção. Conjugação de dados, ou de acasos, não dá para inventar, só crê quem não foge nem pode furtar-se ao que este mundo forja para convertê-lo a quê, aos ventos da vontade, e qual, a sua, a alheia? A lua vinha e cheia e iluminou-se a anhara no bafo aceso das paisagens chãs, na vertigem do tempo, no sopro da galáxia, no hálito da terra.»

Ruy Duarte de Carvalho, Os Papéis do Inglês, Livros Cotovia, Lisboa, 2000.

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