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Ligado, por gosto e formação, às culturas italiana e francesa, João Bigotte Chorão é um escritor que tem prestado particular atenção ao diarismo, ao memorialismo e à epistolografia, áreas de que é profundo conhecedor.
A sua obra reparte-se sobretudo pelo ensaio e pelo diário. No primeiro caso, salientam-se duas vertentes essenciais e complementares: por um lado, um camilianismo tão fascinado pela figura do escritor como pela sua obra, atraente pelo equilíbrio dos juízos e pela inconformidade à convenção académica; por outro lado, a prático do fino retrato literário, que se poderia descrever como a expansão de um nome a partir da exigência de um estilo.
No diário é um universo íntimo que se revela sem se desvendar, feito de admirações e de recusas, um espaço de resistência interior no plano das ideias e de cintilação aforística no plano da escrita. Aí se traça um itinerário de «vozes fraternas» que falam «da mesma angústia, tornando assim menos solitária a nossa solidão», fazendo surgir a nossos olhos da primeira à última página uma verdadeira e aristocrática «família espiritual» consagrada pela admiração literária e artística (Camões, Garrett, Leopardi, Eça, Camilo, Papini, Torga, Unamuno, Cioran, Tomaz de Figueiredo, Eliade, Jünger, entre outros), sem outro compromisso que não seja a adesão a um estilo literário, a um fulgor intelectual, a uma visão do mundo, a um universo de valores, ou, ainda, à grande âncora da amizade. «Discípulo nocturno, por timidez, pudor ou respeito humano, busco os meus mestres só pela calada» foi como se definiu num dos seus primeiros anos de diário.
Seja no ensaio, seja no diário, as ideias e observações do escritor tomam corpo numa língua cheia do sabor vernáculo dos mestres, sem concessões aos modismos, atravessada pela mesma vibração precisa e delicada que se reconhece nos clássicos.
João Bigotte Chorão foi director literário da Editorial Verbo e aí teve a seu cargo o departamento de Enciclopédias e Dicionários, no âmbito do qual dirigiu a publicação da Enciclopédia Verbo – Edição Século XXI (29 volumes, 1998-2003), na qual também redigiu dezenas de verbetes. É sócio e já foi presidente do Círculo Eça de Queirós e é sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa.

n. Guarda, 1933

OBRAS
para além de uma imensa colaboração dispersa em revistas, prefácios, estudos e palestras:

Vintila Horia ou um Camponês do Danúbio (1978)
Camilo. A Obra e o Homem (1979; 2.ª ed. rev.: Camilo, Esboço de um Retrato, 1989)
João de Araújo Correia, um Clássico Contemporâneo (1986)
O Escritor na Cidade (1986)
Carlos Malheiro Dias na Ficção e na História (1992)
Camilo Camiliano (1993)
O Essencial sobre Camilo (1997)
Nossa Lisboa dos Outros (1999)
O Essencial sobre Tomaz de Figueiredo (2000)
Galeria de Retratos (2000)
Diário Quase Completo (2001) – Grande Prémio de Literatura Biográfica da APE
O Espírito da Letra (2004)
Além da Literatura (2014)

EXCERTO DE UM TEXTO DE JOÃO BIGOTTE CHORÃO:
OS LIVROS QUE SE TRAZEM DA ILHA

«À medida que envelhecemos, quando chega a oprimir-nos esse acervo de livros que já não leremos, à medida que o tempo passa e se faz, cada vez mais, dramaticamente escasso, temos a nostalgia de uma biblioteca essencial, de poucos mas bons livros. Aqueles que nos formaram e encantaram — e decidiram, porventura, do nosso destino. São os livros que levamos para a tal ilha deserta. Ou, na lúcida advertência de um leitor omnívoro como Jünger, os livros que traríamos dessa ilha, livros que parecem sempre novos a cada releitura, e preenchem o vazio de horas de solidão e silêncio, e nos confortam neste duro ofício de viver. Livros que, para uns, são os grandes monumentos literários, referências obrigatórias do nosso património cultural. Livros que, para outros, não são os grandes clássicos, que toda a gente conhece ao menos de nome, mas as obras mais discretas, quase descobertas pessoais — não as teríamos encontrado se as não tivéssemos procurado —, talvez confissões em surdina, memórias interiores, diários íntimos, epistolários em busca de um diálogo com o Outro. São, em suma, livros que podemos ler de qualquer maneira, sentados, de pé, deitados, em privado e em lugar público, sem que seja mister vestir-nos de ponto em branco, como para receber visitantes ilustres. Como fazia Maquiavel quando relia os seus clássicos latinos e italianos».

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