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Poeta e ensaísta brasileiro e uma das grandes figuras das Letras no seu país, Ivan Junqueira começou por trabalhar na imprensa, tendo passado pelo Correio da Manhã, Jornal do Brasil e O Globo. Foi também director do centro de informações das Nações Unidas no Rio de Janeiro (1970-1977). Foi editor da revista Piracema, publicada no âmbito das actividades da Funarte, onde também chefiou o departamento de Coordenação de Edições, a partir de 1991. Foi também editor da revista Poesia Sempre e, em 1998, foi curador do Programa de Co-edições da Fundação Biblioteca Nacional.
O livro inaugural da sua obra poética foi Os Mortos (1964), que já contém indícios muito claros do seu percurso futuro, quer no que respeita à indagação existencial, quer no que respeita ao domínio da forma e nela o gosto do rigor e do apuramento e da linguagem «rigorosamente racional, lúcida e intransigente» (Per Johns).
«Ler Ivan, para além do prazer que retiramos do encantamento que sua poesia provoca, é uma lição constante da gama de recursos inerentes ao próprio fazer poético – as várias possibilidades métricas, as correspondências rímicas, as minúcias formais do verso, os diversos esquemas de estruturação do poema, tudo, enfim, que possa trazer à tona todo o universo semântico de que a palavra está virtualmente imbuída. Nele, o emocional vai sempre a reboque da razão, é por ela filtrado e retrabalhado, resultando numa poesia de impressionante permanência ou atemporalidade, onde toda a pulsão é antes medida, menos por conta da escansão (…), mas, sobretudo, por um autocrítica que exclui de sua poesia o que quer que possa estar sob o signo da causalidade: do transitório Ivan recolhe tão-somente aquilo que dialoga com o absoluto, como o amor, como o tempo e suas engrenagens, como a própria vida, enfim» (Ricardo Thomé em «Ivan Junqueira: a poesia do palimpsesto», 2003).
A poesia de Ivan Junqueira, poesia culta e sem escola, à contracorrente da facilidade, pertence a uma linhagem europeia: não por acaso traduziu muito Eliot (traduções aliás premiadas), entre outros autores, como Baudelaire, Leopardi ou Dylan Thomas, com os quais dialoga não poucas vezes. Mas de igual modo se poderia dizer que o faz em relação à poesia de Drummond, de Jorge de Lima ou de Dante Milano.
O Nada e a Morte e os confrontos a que obrigam são temas omnipresentes na poesia de Ivan Junqueira desde o seu primeiro livro publicado (e há quem veja nisso a consequência de um facto trágico da sua vida privada), uma presença geradora de angústia e de inquietação que, como bem mostra Ricardo Thomé, apenas no amor e na arte pode ser, não iludida, mas contrariada, embora sempre fugazmente.
Em A rainha arcaica (1980) – conjunto de 14 sonetos – , que sucede na sua bibliografia a um livro de grande maturidade, Três meditações na corda lírica (1977), elege a figura de Inês de Castro «fazendo-se clássico pela forma como abordou este drama antigo: a sua Inês é tão convincente e lírica quando as de Camões e Jorge de Lima, porém com uma roupagem nova onde se acentua ainda mais a pesquisa da palavra exacta e sonora, compondo o poeta alguns dos melhores sonetos já escritos em português» (Fernando Py,, em Biblos, vol. 5, 2005). À volta deste tema, Ivan Junqueira ministrou na Biblioteca Nacional de Lisboa, em 1994, um curso intitulado «A rainha arcaica: uma interpretação mítico-metafórica».
Quando, no ano 2000, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, aí ocupando a cadeira de João Cabral de Melo Neto e à qual viria a presidir, Ivan Junqueira era já uma das figuras mais respeitadas da poesia e do ensaísmo literário brasileiro, e um dos grandes escritores da Língua Portuguesa.

Rio de Janeiro, 1934 – ibid., 2014

POESIA

Os mortos (1964)
Três meditações na corda lírica (1977)
A rainha arcaica (1980) – Prémio Nacional de Poesia do Instituto Nacional do Livro
Cinco movimentos (1982)
O grifo (1987)
A sagração dos ossos (1994) – Prémio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro; Prémio Luísa Cláudio de Sousa, do Pen Club do Brasil.
Poemas reunidos (1999) – Prémio Jorge de Lima, da União Brasileira de Escritores. Poesia Reunida (2005)
O Outro Lado (2007) – Prémio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro.
Essa música (2014)

ENSAIO

Testamento de Pasárgada – antologia crítica da poesia de Manuel Bandeira (1980)
Dias idos e vividos – antologia crítica da prosa de não-ficção de José Lins do Rego (1981)
À sombra de Orfeu (1985) – Prémio Assis Chateaubriand
O encantador de serpentes (1987) – Prémio Nacional de Ensaísmo do Instituto Nacional do Livro.
Prosa dispersa (1991)
O signo e a sibila (1993)
O fio de Dédalo (1998) – Prémio Oliveira Lima da União Brasileira de Escritores
Baudelaire, Eliot, Dylan: três visões da modernidade (2000)
Escolas Literárias no Brasil (coord.) (2004).
Ensaios Escolhidos (2005)
Roteiro da Poesia Brasileira. Anos 30 – seleção e prefácio (2008).
Cinzas do Espólio (2009) – Prémio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro.
João Cabral de Melo Neto (2010)
Reflexos do sol-posto (2014)

POEMAS

O POLVO
No golfo um polvo hermético se move
entre algas de silêncio e solidão;
no golfo, um polvo, aquático espião,
agita seus tentáculos, remove,
sem trégua, a lama espessa que recobre
o tácito esqueleto de seu pão.
Mas não se sabe a polpa nem o grão
do plasma em chamas que o molusco engole.
Sabe-se apenas que o animal se inclina,
voraz, sobre a nudez da essência pura
e nela enterra a fome de seu dente.
Sabe-se mais: que o mar transfigura
e à tona envia um anjo incandescente
quando no golfo o polvo se ilumina.

em Os Mortos

INÊS, RAINHA PÓSTUMA
Estavas, linda Inês, póstuma e lívida,
como se a vida em ti não mais fluísse,
mas quem te contemplasse saberia
que eras enfim o nervo do conflito:
não tanto aquele que te fez a vítima
dos reis e das intrigas da península,
mas o que dentro de ti mesma urdiram
teu sangue abrupto e teu amor sem bridas.
Por isso é que o sossego não te cinge
nem te refreia o frêmito do instinto
que ainda fustiga o flanco de tuas cinzas.
Ali, na pedra, és de ti própria a epígrafe:
Princípio e fim da mísera e mesquinha
que despois de ser morta foy Rainha.

Em A rainha arcaica

QUANDO SOLENE E AGUDO
Quando solene e agudo eu te penetro,
mais agudo que o gume de uma adaga,
e à tua ilharga, que de suor se alaga,
me enlaço como quem se abraça a um cetro,
e lambo a tua espádua que naufraga
sob o sêmen fugaz com que perpetro
em ti o que não falo ou mal soletro
tal o peso do pasmo que me esmaga,
sou como um rei na cripta de uma vaga
cuja espuma engalana cada imagem
ou palavra que ruge na voragem
das páginas sagradas desta saga.
Quando me afundo em ti, útero adentro,
como Deus, numa esfera, estou no centro.

em  A sagração dos ossos

POÉTICA
A arte é pura matemática
como de Bach uma tocata
ou de Cézanne a pincelada
exasperada, mas exata.

É mais do que isso: uma abstrata
cosmogonia de fantasmas
que de ti lentos se desgarram
em busca de uma forma clara,

da linha que lhes dê, no espaço,
a geometria das rosáceas,
a curva austera das arcadas
ou o rigor de uma pilastra;

enfim, nada que lembre as dádivas
da natureza, mas a pátina
em que, domada, a vida alastra
a luz e a cor da eternidade,

tal qual se vê nas cariátides
ou nas harpias de um bestiário,
onde a emoção sucumbe à adaga
do pensamento que a trespassa.

Despencam, secas, as grinaldas
que o tempo pendurou na escarpa.
Mas dura e esplende a catedral
que se ergue muito além das árvores.

Em A sagração dos ossos

Conversa com Ivan Junqueira
Conferência de Ivan Junqueira na ABL: «Vinícius de Moraes: língua e linguagem poética»
Programa «Revista Literária» com Ferreira Gullar e Ivan Junqueira – 1 e 2
Ivan Junqueira por Lêdo Ivo.
Tradução de The Waste Land de T. S. Eliot por Ivan Junqueira.

 

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