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Fez os primeiros estudos primários em Taperoá, e secundários e superiores no Recife, para onde foi depois do assassinato do pai, deputado federal durante a Revolução de 30, formando-se em Direito em 1950. Tentou a advocacia, mas fixou-se no jornalismo e na literatura, tornando-se (1956) professor de Estética na Universidade de Pernambuco. Desde criança muito se impressionou com os «cantadores» do Nordeste e com os «mamulengos», teatrinho de bonecos, pelo que a sua dramaturgia girou quase sempre em torno de uma coisa e outra, como fonte de inspiração e como destinatário.
Ariano Suassuna transpôs as fronteiras regionais e tornou-se conhecido, no país e no estrangeiro, com o Auto da Compadecida (1955 – Medalha de ouro da Associação Brasileira de Críticos Teatrais) [VER cena do filme de Guel Arraes, de 2000], peça religiosa e escatológica, que renovou a literatura dramática brasileira, na linha de Gil Vicente e cuja concepção cénica é reminiscente das representações que viu em criança, realizadas no centro de um picadeiro.
Em 1960, formou-se em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco. Em 1976, tornar-se-á Livre Docente pela Universidade Federal de Pernambuco.
A esta outras se seguiram, com menos êxito, mas nem sempre com menor talento. Em 1971, publicou Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, que se apresenta como romance armorial-popular brasileiro, inscrito no Movimento Armorial que idealizou em 1970 e que caracterizou assim: «a Arte Armorial Brasileira tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico dos ‘folhetos’ do Romanceiro Popular do Nordeste (Literatura de Cordel), com a Música de viola, rabeca ou pífaro que acompanha os seus ‘cantares’ e com a Xilogravura que ilustra as suas capas, assim como com o espírito e a forma das Artes e espectáculos populares com esse mesmo Romanceiro relacionados» (citado por Carlos Newton Júnior em Biblos, V, 2005). Foi, desde 1990, membro da Academia Brasileira de Letras.

Nossa Senhora das Neves (hoje João Pessoa), Paraíba, 1927 – Recife, 2014

OBRAS
O Pasto Incendiado (poesia inédita, 1945-70)
Uma Mulher Vestida de Sol (teatro, 1947)
Os Homens de Barro (teatro, 1949)
Auto de João da Cruz (teatro, 1950)
Torturas de um Coração ou Em Boca Fechada Não Entra Mosquito (teatro, 1951)
O Arco Desolado (teatro, 1952)
O Castigo da Soberba (teatro, 1953)
O Rico Avarento (1954)
A história do amor de Fernando e Isaura (1956, publicado em 1994)
O Casamento Suspeitoso (teatro, 1957)
O Santo e a Porca (teatro, 1957 – Medalha de ouro da Associação Paulista de Críticos Teatrais)
O Homem da Vaca e o Poder da Fortuna (teatro, 1958)
A Pena e a Lei (teatro, 1959)
Farsa da Boa Preguiça (teatro, 1960)
A Caseira e a Catarina (teatro, 1962)
O Movimento Armorial (ensaio, 1974)
Iniciação à Estética (ensaio, 1975)
A Onça Castanha e a Ilha Brasil: Uma Reflexão sobre a Cultura Brasileira (tese de livre-docência em História da Cultura Brasileira, 1976)
História d’O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão / Ao Sol da Onça Caetana (romance armorial e novela romançal brasileira, 1977)
As Conchambranças de Quaderna (teatro, 1987)
Sonetos com Mote Alheio (1980)
Sonetos de Albano Cervonegro (1985)
Poemas (antologia, 1999)

Aula Espectáculo de Ariano Suassuna (2012)
Aula Espectáculo de Ariano Suassuna (2013)
Vida e Obra de Ariano Suassuna – 1 e 2
Programa Roda Viva com Ariano Suassuna

EXCERTO DO AUTO DA COMPADECIDA

III QUADRO

SACRISTÃO: – Mas um cachorro morto no pátio da casa de Deus?
PADEIRO: – Morto?
MULHER (mais alto): Morto?
SACRISTÃO: – Morto, sim. Vou reclamar à prefeitura,
PADEIRO: (correndo e voltando-se do limiar) É verdade, morreu.
MULHER: – Ai, meu Deus, meu cachorrinho morreu.

(Correm todos para a direita, menos João Grilo e Chicó. Este vai para a esquerda, olha a cena que se desenrola lá fora, e fala com grande gravidade na voz.)

CHICÓ: – É verdade; o cachorro morreu. Cumpriu sua sentença encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.
JOÃO GRILO: – (suspirando) Tudo o que é vivo morre. Está aí uma coisa que eu não sabia! Bonito. Chicó, onde foi que você ouviu isso? De sua cabeça é que não saiu, que eu sei.
CHICÓ: – Saiu mesmo não, João. Isso eu ouvi um padre dizer uma vez.
MULHER: – (entrando) Ai, ai, ai, ai, ai! Ai, ai, ai, ai, ai!
JOÃO GRILO: – (mesmo tom) Ai, ai, ai, ai, ai! Ai, ai, ai, ai, ai! (Dá uma cotovelada em Chicó)
CHICÓ: (obediente) Ai, ai, ai, ai, ai,! Ai, ai, ai, ai, ai! (Essa lamentação deve ser mal representada de propósito, ritmada como choro de palhaço de circo)
SACRISTÃO: – (entrando, com o padre e o padeiro) Que é isso, que é isso? Que barulho é esse na porta da casa de Deus?
PADRE: – Todos devem se resignar.
MULHER: – Se o senhor tivesse benzido o bichinho, a essas horas ele ainda estava vivo.
PADRE: – Qual, qual, quem sou eu?
MULHER: – Mas tem uma coisa, agora o senhor enterra o cachorro.
PADRE: – Enterro o cachorro?
MULHER – Enterra e tem que ser em latim. De outro jeito não serve, não é?
PADEIRO: – É, em latim não serve.
MULHER: – Em latim é que serve!
PADEIRO: É, em latim é que serve!
PADRE: – Vocês estão loucos! Não enterro de jeito nenhum.
MULHER: – Está cortado o rendimento da irmandade.
PADRE: – Não enterro.
PADEIRO: – Está cortado o rendimento da irmandade!
PADRE: – Não enterro.
MULHER: – Meu marido considera-se demitido da presidência!
PADRE: – Não enterro.
PADEIRO: – Considero-me demitido da presidência!
PADRE: – Não enterro.
MULHER: – A vaquinha vai sair daqui imediatamente!
PADRE: – Oh mulher sem coração!
MULHER: – Sem coração, porque não quero ver meu cachorrinho comido pelos urubus? O senhor enterra!
PADRE: – Ai meus dias de seminário, minha juventude heróica e firme!
MULHER: – Pão para casa do vigário só vem agora dormido e com o dinheiro na frente. Enterra ou não enterra?
PADRE: – Oh mulher cruel!
MULHER: – Decida-se, Padre João.
PADRE: – Não me decido coisa nenhuma, não tenho mais idade para isso. Vou é me trancar na igreja e de lá ninguém me tira. (Entra na igreja correndo)
JOÃO GRILO: – (chamando o patrão à parte) Se me dessem carta branca, eu enterrava o cachorro.
PADEIRO: – Tem a carta.
JOÃO GRILO: – Posso gastar o que quiser?
PADEIRO: – Pode.
MULHER: – Que é que vocês estão combinando aí?
JOÃO GRILO: – Estou dizendo que, se é desse jeito, vai ser difícil cumprir o testamento do cachorro, na parte do dinheiro que ele deixou para o padre e para o sacristão.
SACRISTÃO – Que é isso? Que é isso? Cachorro com testamento?
JOÃO GRILO: – Esse era um cachorro inteligente. Antes de morrer, olhava para a torre da igreja toda vez que o sino batia. Nesses últimos tempos, já doente para morrer, botava uns olhos bem compridos para os lados daqui, latindo na maior tristeza. Até que meu patrão entendeu, com a minha patroa, e é claro que ele queria ser abençoado pelo padre e morrer como cristão. Mas nem assim ele sossegou. Foi preciso que o patrão prometesse que vinha encomendar a bênção e que, no caso dele morrer, teria um enterro em latim. Que em troca do enterro acrescentaria no testamento dele dez contos de réis para o padre e três para o sacristão.
SACRISTÃO: – (enxugando uma lágrima) Que animal inteligente! Que sentimento nobre! (Calculista) E o testamento? Onde está?
JOÃO GRILO: – Foi passado em cartório, é coisa garantida. Isto é, era coisa garantida, porque agora o padre vai deixar os urubus comerem o cachorrinho e se o testamento for cumprido nessas condições, nem meu patrão nem minha patroa estão livres de serem perseguidos pela alma.
CHICÓ: – (escandalizado) Pela alma?
JOÃO GRILO: – Alma não digo, porque acho que não existe alma de cachorro, mas assombração de cachorro existe e é uma das mais perigosas. E ninguém quer se arriscar assim a desrespeitar a vontade do morto.
MULHER: – (duas vezes) Ai, ai, ai, ai, ai!
JOÃO GRILO E CHICÓ, mesma cena.
SACRISTÃO: – (cortante) Que é isso; que é isso? Não há motivo para essas lamentações. Deixem tudo comigo. (Entra apressadamente na igreja).
PADEIRO: – Assombração de cachorro? Que história é essa?
JOÃO GRILO: – Que história é essa? Que história é essa é que o cachorro vai se enterrar é em latim.
PADEIRO: – Pode ser que se enterre, mas em assombração de cachorro eu nunca ouvi falar.
CHICÓ: – Mas existe. Eu mesmo já encontrei uma.
PADEIRO: – (temeroso) Quando? Onde?
CHICÓ: – Na passagem do riacho de Cosme Pinto.
PADEIRO: – Tinham me dito que o lugar era assombrado, mas nunca pensei que se tratasse de assombração de cachorro.
CHICÓ: – Se o lugar é assombrado, não sei. O que eu sei é que eu ia atravessando o sangrador do açude e me caiu do bolso n’água uma prata de dez tostões. Eu ia com meu cachorro e já estava dando a prata por perdida, quando vi que ele estava assim como quem está cochichando com outro. De repente o cachorro mergulhou, e trouxe o dinheiro, mas quando fui verificar só encontrei dois cruzados.
PADEIRO: – Oi! E essas almas de lá têm dinheiro trocado?
CHICÓ: – Não sei, só sei que foi assim. (O sacristão e o padre saem da igreja)
SACRISTÃO: – Mas eu não já disse que fica tudo por minha conta?
PADRE: – Por sua conta como, se o vigário sou eu?
SACRISTÃO: – O vigário é o senhor, mas quem sabe quanto vale o testamento sou eu.
PADRE: – Hem? O testamento?
SACRISTÃO: – Sim, o testamento.
PADRE: – Mas que testamento é esse?
SACRISTÃO: – O testamento do cachorro.
PADRE: – E ele deixou testamento?
PADEIRO: – Só para o vigário deixou dez contos.
PADRE: – Que cachorro inteligente! Que sentimento nobre!
JOÃO GRILO: – E um cachorro desse ser comido pelos urubus! É a maior das injustiças.
PADRE: – Comido, ele? De jeito nenhum. Um cachorro desse não pode ser comido pelos urubus.

(Todos aplaudem, batendo palmas ritmadas e discretas, e o padre agradece, fazendo mesuras. Mas de repente lembra-se do Bispo.)

PADRE: – (aflito) Mas que jeito pode-se dar nisso? Estou com tanto medo do bispo! E tenho medo de cometer um sacrilégio!
SACRISTÃO: – Que é isso, que é isso? Não se trata de nenhum sacrilégio. Vamos enterrar uma pessoa altamente estimável, nobre e generosa, satisfazendo, ao mesmo tempo, duas outras pessoas altamente estimáveis (aqui o padeiro e a mulher fazem uma curvatura a que o sacristão responde com outra igual), nobres (nova curvatura) e, sobretudo, generosas (novas curvaturas). Não vejo mal nenhum nisso.
PADRE: – É, você não vê mal nenhum, mas quem me garante que o bispo também não vê?
SACRISTÃO: – O bispo?
PADRE: – Sim, o bispo. É um grande administrador, uma águia a quem nada escapa. JOÃO GRILO: – Ah, é um grande administrador? Então pode deixar tudo por minha conta, que eu garanto.
PADRE: – Você garante?
JOÃO GRILO: – Garanto. Eu teria medo se fosse o anterior, que era um santo homem. Só o jeito que ele tinha de olhar para a gente me fazia tirar o chapéu. Mas com esses grandes administradores eu me entendo que é uma beleza.
SACRISTÃO: – E mesmo, não será preciso que Vossa Reverendíssima intervenha. Eu faço tudo.
PADRE: – Você faz tudo?
SACRISTÃO: – Faço.
MULHER: – Em latim?
SACRISTÃO: – Em latim.
PADEIRO: – E o acompanhamento?
JOÃO GRILO: – Vamos eu e o Chicó. Com o senhor e sua mulher, acho que já dá um bom enterro.
PADEIRO: – Você acha que está bem assim?
MULHER: – Acho.
PADEIRO: – Então eu também acho.
SACRISTÃO: – Se é assim, vamos ao enterro. (João Grilo estende a mão a Chicó que a aperta calorosamente) Como se chamava o cachorro?
MULHER: – (chorosa) Xaréu.
SACRISTÃO: – (Enquanto se encaminha para a direita, em tom de canto gregoriano) Absolve, Domine, animas omnium fidelium defunctorum ab omni vinculi delictorum.
TODOS: – Amém.

(Saem todos em procissão, atrás do sacristão, com exceção do padre, que fica um momento silencioso, levando depois a mão à boca, em atitude angustiada, e sai correndo para a igreja.)

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