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Livro FG

Dois poetas em quatro actos

Reunido num só volume, o texto de quatro comunicações de Fernando Guedes à Academia das Ciências de Lisboa com o título de T. S. Eliot e Ezra Pound – uma tentativa de aproximação às suas vidas e às suas obras, acaba de ser publicado pela Verbo, a editora que o Autor fundou e dirigiu durante mais de 50 anos, agora uma apagada chancela da Babel.

Há muito que Fernando Guedes se interessa por estes dois autores, nascidos americanos, mas cujos destinos se jogaram sobretudo no continente europeu. Poeta, ligado à Távola Redonda, nessas «folhas de poesia», cuja publicação se iniciou em Janeiro de 1950, apresentou e traduziu ambos. Eliot fora distinguido com o Nobel em 1948; Pound, internado num hospital psiquiátrico, recebera o Prémio Bollingen, em 1949. Posteriormente, no final da década, Fernando Guedes haveria de dirigir uma outra revista que logo no título – Tempo Presente – evocava Eliot (O tempo presente e o tempo passado/ São ambos presentes talvez no tempo futuro/E o tempo futuro contido no tempo passado) e que no segundo número apresentava traduções de Pound e saudava a sua libertação, ocorrida no ano anterior. [1]

Deste modo, o que Fernando Guedes faz nestas quatro comunicações é arrumar de forma condensada o seu próprio percurso de leitor de Eliot e Pound ao longo de décadas e apresentar a sua visão sobre o lugar de cada um deles na poesia do século xx. Fá-lo, articulando vida e obra como factos indesligáveis, mas sem retirar às obras autonomia estética, nem secundarizar a identidade das respectivas expressões poéticas.

Partindo de uma perspectiva, que foi antes de mais geracional, de reavaliação da modernidade face à tradição, mas também ideológica na marcação das suas distâncias, Fernando Guedes engloba no seu interesse por estes poetas a dinâmica concisa e complexa da estética imagista, a relação com as artes plásticas, e, muito particularmente, a sua ressonância mítica e religiosa.

Para Fernando Guedes, Eliot é o maior poeta de língua inglesa do século xx (p. 47) e The Waste Land (publicado em 1922) «o mais visionário poema» que nos legou esse século (p. 30), o «monumento poético por excelência» da sua primeira metade (p. 51).

Travessia de uma terra devastada – ou exausta? – produzida num registo aglutinador das mais extraordinárias referências, sincopado como uma montagem cinematográfica (como o serão também, a seu modo, os Cantos de Pound), o poema constituiria uma «descida aos infernos» (p. 31), reflexo e testemunho do contacto do poeta de origens puritanas com os devaneios promíscuos da sociedade intelectual londrina pós-vitoriana, onde emerge o grupo de Bloomsbury, de que Virginia Woolf é a principal figura, conduzido pela sua primeira mulher, a  «vulcânica» (p. 54) Vivienne Haigh-Wood. Finda a travessia, surge um novo Eliot, que se orienta lenta mas decisivamente para o still point of the turning world. O Autor sinaliza esse percurso de ascese, desde a conversão ao anglo-catolicismo (em 1929, Eliot definia-se já como «classicist in literature, royalist in politics, and anglo-catholic in religion») aos grandes poemas de Four Quartets, «o luminoso final da sua extraordinária obra poética» (p. 37), cuja nova intensidade poética não deixa de se produzir também numa dimensão de «enorme complexidade e obscuridade» (p. 51). É esse percurso que sobretudo interessa e fascina Fernando Guedes, que de modo nenhum omite as diversas ambiguidades de Eliot.

É sobejamente conhecido o contributo decisivo de Pound para o estabelecimento da versão definitiva e muito mais curta de The Waste Land, que Eliot sublinha na dedicatória a Pound, aí designado como il miglior fabbro. Mas esta conjunção é passageira. O destino dos dois poetas será muito diverso.

A vida do inventor do Imagismo – «este homem estranho, exibicionista, excêntrico, imprevisível, teimoso mas volúvel, afirmativo e contraditório» (p. 82) – e criador, com Wyndham Lewis, do Vorticismo, revolver-se-á sempre mais na torrente do turning world, do vórtex (cujo centro fixo tem uma paradoxal afinidade com o still point), e «são muitas as descidas aos mundos subterrâneos onde Hades domina» (p. 116) deste homem demonizado como fascista e estigmatizado como traidor à pátria.

Fernando Guedes orienta-nos através dos grandes marcos da vida do poeta e das suas vicissitudes, desde a grande energia colocada no apoio e promoção de imensos jovens escritores e artistas, à vida a três com Dorothy Shakespear e Olga Rudge, ao essencial das suas ideias económicas, à abominação da usura como categoria e símbolo do mundo contemporâneo, à sua prisão e internamento no final da II Guerra, e, claro, à evolução da sua poesia.

O último texto é sobretudo uma espécie de pequeno guia impossível dos Cantos, obra-prima de importância radical «para o leitor que acredite na importância do poema» (p. 96), gigantesco e caótico, ao mesmo tempo luminoso e obscuro, epopeia da descida aos infernos e de um ambicionado regresso à luz – que o «último» Pound, no final considerou falhada. E é precisamente nessa confissão que o Autor parece vislumbrar alguma claridade.

Diga-se, como curiosidade, que este poeta «sem mestres e sem discípulos» (p. 119), em carta ao poeta brasileiro Gerardo Mello Mourão, muito provavelmente do final dos anos 60, afirmou: «Em toda a minha obra, o que tentei foi escrever a epopeia da América. Creio que não consegui. Quem conseguiu foi o poeta de O País dos Mourões». Mas esta é uma outra história.

Tanto Eliot como Pound tomaram Dante como arquétipo, ambos tomaram como referência a poesia medieval, ambos se interessaram pela poesia isabelina e depois pelos simbolistas, ambos tomaram parte na erupção modernista e ambos se preocuparam com as especificidades do fazer poético. Tradição e modernidade.

Este livro de Fernando Guedes é um livro raro porque nos dá a ver este universo, simultaneamente como leitor sereno e como «parte interessada» (diz Pound em ABC of Reading: «Men do not understand BOOKS until they have a certain amount of life. Or at any rate no man understands a deep book, until he has seen and lived at least part of its contents.»), que ao longo dos anos tem procurado reconstituir para si mesmo o desenho maior contido no quebra-cabeças destas duas vidas e obras que marcaram tão decisivamente a modernidade literária.

Jorge Colaço

[1] Para uma contextualização mais detalhada consultar Fernando J. B. Martinho, Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa da Década de 50, Colibri, 2.ª edição, Lisboa, 2013; e «Pound e a Poesia Portuguesa Contemporânea» em Diacrítica, n.º 21,3, Braga, 2007.

publicado em As Artes Entre as Letras, n.º 127/128, Porto, Julho de 2014 (republicado em http://retentiva.wordpress.com)

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