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Poeta, crítico e ensaísta, professor emérito da PUC-Rio e da Universidade Federal de Goiás, professor titular do Centro Ensino Superior-Juiz de Fora e professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Esteve como professor de literatura brasileira em universidades do Uruguai (Montevidéu), de Portugal (Lisboa), França (Rennes e Nantes), Estados Unidos da América (Chicago) e Espanha (Salamanca). De entre as numerosas distinções de que tem sido alvo, refere-se, para além dos prémios literários, o grau de comendador da Ordem do Infante Dom Henrique (1987), a Medalha Drummond de Andrade da União Brasileira de Escritores (2007) e a Medalha Jorge Amado pelos serviços relevantes prestados à União Brasileira de Escritores (2008). Membro de diversas instituições, refere-se aqui a sua qualidade de sócio da Academia das Ciências de Lisboa (1998) e Membro Honorário da Academia Brasileira de Filologia (2006). Organizou e prefaciou numerosas antologias e edições de obras completas de figuras como Gonçalves Dias, Carlos Drummond de Andrade, Orígenes Lessa, Bernardo Élis, Gregório de Matos, Jorge de Lima ou Augusto Frederico Schmidt.
Em 2007, foi publicado na editora Kelps um volume de homenagem a Gilberto Mendonça Teles, com o patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura de Goiânia e organizado por Eliane Vasconcellos: A Plumagem dos Nomes. Gilberto – 50 anos de literaturaTem antologias de poesia publicadas em espanhol, italiano, francês e búlgaro. A mais recente distinção, de que será objecto, é o doutoramento honoris causa pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (Agosto de 2014).

n. Bela Vista de Goiás, 1931.

TEXTO
As fidelidades electivas
Recordo-me de um dia, no intervalo de um congresso, Gilberto Mendonça Teles se ter lamentado por ter tido de escutar, na mesa, a outras intervenções sem lápis ou caneta com que rabiscar. É que, explicou, à volta de uma palavra ouvida ou lembrada por vezes se ata outra e nesta um verso hipotético pedindo ao poeta que outros nele se entrelacem ou encavalitem, pois quem sabe se mais tarde, passado o crivo do tempo, eles levam ao poema.
Este episódio sempre me pareceu emblemático da fidelidade de Gilberto à palavra. À palavra física, a falavra, diz ele, repleta de sucos, sons e evocações, e ao que por dentro nela lavra e que é larva, digo eu, estado primeiro, ponto de partida das metamorfoses do sentido e do contágio dos sentidos.
Nesta fidelidade à palavra há toda uma humildade que simultaneamente contém uma disposição paciente e oficinal e uma vertigem avassalante, ambas se confundindo sob a batuta astuta do Poeta, que não se furta à luta e ora é senhor ora é servo, mas sempre fiel à sua condição.
A palavra trina – isco, anzol e presa: eis como tudo se passa entre o professor, o crítico e o poeta.
Fidelidade à palavra («Tudo em mim é desejo de linguagem») que é no mesmo passo centro e limiar, polpa e pele, miolo e côdea, fronteira entre aquém e além, alvorada e crepúsculo, libertação e vício, que é habitação e habitante. E é nome, palavra-moradia, com suas exigências de clausura, modo de vida, rendição, e riso e sorriso também.
Fidelidade à palavra que congrega, segrega, e sobretudo agrega o passado do futuro ao presente da memória, a experiência ao experimento, o viso ao improviso, o órgão à volúpia.
Esta me parece a sua segunda fidelidade: fidelidade a si próprio, aos seus lugares e ao seu lugar no mundo, que é o seu olhar o mundo. Fiel à sua raiz, que rima com Goiás, à sua biografia, aos seus amores, aos seus saberes, tanto os modestos como os ilustres, aos seus labores, os mais simples como os mais sofisticados, à sua inocência perdida e à sua inocência reganhada. Fiel à travessura, fiel à travessia, à viagem que o leva – ou traz – sempre de volta às origens (como o poema «Eterno retorno» tão bem ilustra). Fiel à ironia, frequentemente à auto-ironia.
Elejo a terceira fidelidade de Gilberto como a fidelidade à música. À música interior dos seus versos (por vezes sequências de palavras que, perante as outras, a si próprias se revelam), a que nunca renunciou mesmo nos casos mais extremos da sua versatilidade. À música, que me surge como constituinte do seu genoma poético e está em relação com uma apurada capacidade de escuta, pessoal e cósmica, e pela qual a «sintaxe invisível» também se realiza («Há sempre um ritmo oculto que governa/ nosso mover de câncer sobre as águas»), e que, digamos, lhe está no sangue, sangue de poeta, já se vê, poeta moderno da velha escola de Orfeu. Fiel ao lirismo, portanto. Que é, aliás, uma outra forma de fidelidade a si próprio.
Bem como a fidelidade às coisas, que são coisas além do nome (mas cuja realidade só na «plumagem dos nomes» se confirma) e são âncoras e sinais que nos nomeiam – ou criam? – em silêncio: «Eu sempre me rodeio de coisas,/ porque são elas que me devolvem/ à primitiva consciência do mundo.// São elas que me situam no centro/ de mim mesmo, na linguagem maior/ que não ousa atravessar as lindes/ mais fundas do silêncio.»
Mas a poesia de Gilberto, «matéria intransitiva», revela ainda outra fidelidade: a de «ver em tudo/ um sentido possível, de veludo,/ de macia ternura, sutileza». Ela, esta outra fidelidade, participa daquele senso musical que emana dos seus versos, mas este olhar é, antes de tudo, antes de mais, uma exigência que configura uma ética conforme à sua forma de existir, à sua forma de conceber a existência, à sua cordialidade essencial. E esta é, certamente, a razão de haver tanta gente nos seus versos: antes, durante e depois deles.
E isso configura mais um traço de fidelidade em Gilberto, no poeta e no homem: a sua generosidade cristã e subtil, a sua inteligência dos outros, que é, também, fruto da liberdade de espírito e de circulação, de que os seus muitos prefácios e, por exemplo, os seus versos de circunstância também, de algum modo, dão testemunho.
Oitenta anos de idade, mais de cinquenta de vida literária marcada, finalmente, por uma enorme fidelidade à sua obra – poética, ensaística, docente, humana –, forjada na tensão entre uma timidez confessa e um entusiasmo professo, e no centro deste último uma íntima fé na palavra por vir e no devir poético dela, cuja primeira exigência é ter sempre caneta e papel por perto.

Jorge Colaço

Publicado originalmente em As Artes Entre As Letras, n.º 54, Porto, Setembro de 2011, por ocasião dos 80 anos de GMT.

OBRAS
POESIA
Alvorada, 2005
Estrela-d’alva, 1956
Planície, 1958
Fábula de fogo, 1961 (Prémio Leo Lynce da UBE)
Pássaro de pedra, 1962 (Prémio Álvares de Azevedo da Academia Paulista de Letras)
Sintaxe invisível, 1967
A Raiz da fala, 1972 (Prémio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras)
Arte de Armar, 1977 (Prémio Brasília de Cultura)
Poemas reunidos, 1978
Saciologia goiana, 1980
Plural de nuvens, 1984
& Cone de sombras, 1995
Hora aberta (3.ª edição dos Poemas reunidos), 1986 (Prémio Cassiano Ricardo do Clube de Poesia de São Paulo; Prémio Machado de Assis [conjunto de obras] da Academia Brasileira de Letras)
Caixa de fósforos (poemas dedicados e circunstanciais), 1999
Álibis, 2000
Arabiscos (publicado na 4.ª edição de Hora aberta, Troféu Plínio Doyle)
Improvisuais (publicado na 4.ª edição de Hora aberta)
Linear G, 2010 (Prémio Jabuti de Poesia, 2.º lugar)

ENSAIO
Goiás e Literatura, 1964
A Poesia em Goiás, 1964
O Conto brasileiro em Goiás, 1969
La poesia brasileña en la actualidad (Montevidéu, 1969)
Drummond – a estilística da repetição, 1970 (Prémio Sílvio Romero, da Academia Brasileira de Letras)
Vanguarda europeia e modernismo brasileiro, 1972 (20.ª edição, 2012)
Camões e a poesia brasileira, 1973 (Prémio Fundação Cultural do Distrito Federal e Menção Honrosa do Instituto Nacional do Livro)
Retórica do silêncio, 1979
Estudos de poesia brasileira (Coimbra, 1985)
A Crítica e o romance de 30 no Nordeste, 1990
A Crítica e o princípio do prazer, 1995
A Escrituração da escrita, 1996
Intenções de Ofício (Depoimento sobre poesia), 1998
Vanguardia latino-americana (com Klaus Muller-Bergh), 5 vols., 2000
Contramargem, 2002 (Prémio Juca Pato – Intelectual do Ano)
Sortilégio da criação, 2005
Contramargem – II, 2009
O Mito camoniano (Porto), 2012

Gilberto Mendonça Teles no programa Vereda Literária (1997)
Gilberto Mendonça Teles no programa Raízes (2011) – 1 e 2
Gilberto Mendonça Teles no programa Em Pauta da Globo News (2011) – 1234

Poesia e outros conteúdos sobre Gilberto Mendonça Teles
Entrevista e outros materiais sobre Gilberto Mendonça Teles.
Gilberto Mendonça Teles entrevistado por Selmo Vasconcellos (2007)
Entrevista com Gilberto Mendonça Teles (2008)
Entrevista com Gilberto Mendonça Teles (2009)
Gilberto Mendonça Teles entrevistado por Rodrigo Souza Leão.
Entrevista de Gilberto Mendonça Teles por Luiz Alberto Machado.
Banco de Poesia: Gilberto Mendonça Teles.
Gilberto Mendonça Teles entrevistado por Iuri Pereira (Editora Hedra)
Olho Vivo – encontro com Gilberto Mendonça Teles.

GMT 2

Gilberto Mendonça Teles em Lisboa, em 2013

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