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Baruch (Bento) de Espinosa nasceu numa família de judeus sefarditas expulsos da Península Ibérica. Educado na comunidade israelita de Amesterdão, dela foi expulso e excomungado, em 1656, devido às suas opiniões heterodoxas. Desde então passou a viver em extrema pobreza dedicando-se à filosofia e à arte de polir lentes para instrumentos ópticos. Em 1663, publicou Renati Descartes Principia Philosophiae; em 1670, surgiu anonimamente o Tractatus Theologico-politicus; em 1674, concluiu a Ethica ondine geometrico demonstrata que só foi publicada após a sua morte para evitar a condenação das igrejas católica e protestante que já se havia abatido sobre a obra anterior. Postumamente surgiram, inacabados, o Tractatus politicus e o Tractatus de intelectus emendatione.

Amesterdão, 1632 – A Haia, 1677

Doutrina. Apesar de conhecer profundamente a filosofia medieval, sobretudo Escoto, Occana e Suárez, o principal ponto de partida da especulação de Espinosa é Descartes e, concretamente, a definição de substância.
Descartes afirmava que a substância é tudo aquilo que não necessita de mais nada para existir, além de si própria. Segundo esta definição, seria contraditório classificar a res extensa e a res cogitans como substâncias. Espinosa define substância dizendo que é aquilo que é em si e se concebe por si, ou seja, aquilo cujo conceito não necessita do conceito de outra coisa pelo qual devesse ser formado. Conclui, desta definição, que apenas há uma única substância. Deste pressuposto, e por aplicação de um método rigorosamente dedutivo (ondine geometrico), elabora o seu sistema monista e panteísta.
Em primeiro lugar há que salientar que a substância se identifica com a Natureza, tal como já o fizera Giordano Bruno, e com Deus, ser infinito, absoluto, perfeito, causa de si mesmo (Deus sive natura). Contra o dualismo cartesiano pensamento/extensão, Espinosa contrapõe que Deus é a única substância identificada com a natureza impessoal do universo. Desta substância derivam todos os fenómenos e, da mesma forma, do nosso conceito de Deus pode deduzir-se todo o sistema filosófico através de uma ordem rigorosamente matemática que preside ao universo.
As principais etapas do raciocínio de Espinosa no que concerne à demonstração do monismo de substância são as seguintes:
– A causalidade supõe comunidade de atributos entre a causa e o efeito.
– Entre duas substâncias distintas não pode haver comunidade de atributos.
– Logo uma substância não pode produzir outra nem por ela ser produzida.
– Então toda a substância é causa de si mesma (causa sui), compreendendo a sua essência necessariamente a existência.
– Por consequência, toda a substância é infinita e auto-suficiente.
– Se existe uma substância absolutamente infinita, com uma infinidade de atributos infinitos, não há lugar para a existência de qualquer outra substância.
– Como existe Deus, substância infinitamente infinita é necessário afirmar que «além de Deus não pode dar-se nem conceber-se outra substância».
Deste modo, a extensão e o pensamento são meros atributos da substância única. De facto, Deus tem infinitos atributos, dos quais, só temos conhecimento daqueles dois. Os atributos, por sua vez, realizam-se por aquilo que Espinosa designa por modos. Modo, por contraposição à substância, é tudo o que existe e só se concebe através de outra coisa. Os modos são afecções mediante as quais se expressa a substância única através dos seus atributos. Os modos do atributo extenso são as coisas; os modos do atributo pensamento são as ideias. O problema de comunicação das substâncias que fora levantado por Descartes, obtém de Espinosa uma solução decorrente da sua definição monista de substância: havendo apenas uma substância, o problema pura e simplesmente desaparece. Mas, uma vez que a substância tem dois atributos, o problema agora, se não é o de comunicação, é o de correspondência. Esta correspondência pode estabelecer-se a priori: entre pensamento e extensão há uma correspondência de rigoroso paralelismo decorrente do facto de serem simples expressão de uma única e mesma substância. A acrescer que tal paralelismo também se pode estender aos modos: cada modo do atributo extenso – coisa – será paralelo ao seu correspondente modo do atributo pensamento – ideia. Por isso, a ordem e conexão das ideias é o mesmo que a ordem e a conexão das coisas.
Para Espinosa o homem é um modo de única substância, mas um modo peculiar, já que é modo dos dois atributos de Deus – extensão e pensamento. O homem tem um corpo e alma que não estão unidos, mas funcionam em paralelismo, sendo que tudo o que acontece no homem é puramente natural. O homem não é livre, visto que a liberdade é património exclusivo de Deus. No entanto, pode libertar-se pelo conhecimento e obediência a Deus: obedecer à liberdade (Deus) equivale a ser livre.
A ética espinosista abarca todo o seu sistema. Em primeiro lugar é uma ontologia de Deus visto que é este a substância única, natureza eterna e infinita. Em segundo lugar é um tratado acerca dos dois atributos divinos. Em terceiro lugar é um estudo das paixões. Em quarto lugar é uma investigação sobre a escravidão humana. Finalmente, é uma exposição sobre o poder do intelecto ou, dito de outro modo, sobre a identificação entre liberdade e felicidade humanas com o amor intelectual a Deus.
A rejeição face à filosofia de Espinosa foi quase geral devido à acusação de ateísmo. Só quando a interpretação do espinosismo deixou de estar marcada pela polémica religiosa e se centrou nas questões propriamente filosóficas é que a óbvia componente neoplatónica da concepção de Deus como conjunto de tudo quanto existe foi salientada. Tal só ocorreu com o Romantismo que, a partir de Fichte e depois com Schelling e Hegel, viu na substância espinosista o Infinito ou o Absoluto na sua expressão objectiva.

Introdução à ética de Espinosa, por Joaquim de Carvalho
O desejo na Ética de Espinosa, por Maria da Graça Tendeiro
O lugar de Spinoza na História da Filosofia, o modelo interpretativo de Joaquim de Carvalho, por José Maurício de Carvalho e Danilo Santos Dornas
Ideias e Afecto, Espinosa lido por Gilles Deleuze
Obras de Espinosa no Projecto Gutenberg
O Apóstolo da Razão, filme legendado em português.

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