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Para muitos, o nome de Maria de Lourdes Modesto evoca imediatamente o programa, que, desde 1958 e ao longo de doze anos, manteve na RTP. O que a deixa, desde logo, ligada à própria história da televisão em Portugal, não só por ter sido uma das suas pioneiras, mas também por ter sido uma das suas primeiras «estrelas». Recordemos, como a própria recorda, que, nessa época, a culinária e a gastronomia não eram ainda vulgarmente tidas como sinónimo de cultura. Pelo contrário, constituíam minudências de senhoras que a estas somente interessavam, como, aliás, outros lavores femininos. Que Maria de Lourdes Modesto tenha conseguido subtrair estes domínios a essa dimensão redutora, progressivamente lhes dando uma outra dignidade, é sem dúvida um feito que tudo deve à sua personalidade e persistência.

A verdade é que a cozinha se foi impondo na vida de Maria de Lourdes Modesto não como uma escolha perfeitamente nítida e definida desde o início, mas de uma forma quase acidental que as circunstâncias foram ditando ou permitindo. Nascida na província e no interior, em Beja, a grande cidade parece ter constituído desde logo uma atracção irresistível, por oposição ao carácter concentracionário e mesquinho do meio pequeno. Em Lisboa, no Liceu Maria Amália fez um curso de Economia Doméstica, um dos cursos que então (final da década de 40) a Mocidade Portuguesa e o Ministério da Educação promoviam, o que lhe permitiria dar aulas de culinária, integradas no que ao tempo se chamavam actividades circum-escolares, no Liceu Filipa de Lencastre e, depois, também no Centro Universitário de Lisboa. Enquanto isso, esteve também ligada ao Instituto Médico-Pedagógico Condessa de Rilvas, ocupando-se de crianças deficientes mentais; mais tarde, colaborou com um médico do Hospital Júlio de Matos, no âmbito da experimentação de práticas de ergoterapia.

Mas foi à colocação no Liceu Charles Lepierre, então ainda no Pátio do Tijolo, para onde foi em regime de substituição, que Maria de Lourdes Modesto ficou a dever as condições de uma maior estabilidade financeira. Foi aí, num clima de maior arejamento cultural, que o convívio com os professores franceses a foi pondo em contacto com múltiplos aspectos da cozinha de França, cuja riqueza e requinte passou a admirar. E foi numa récita de uma peça de Molière, levada a cena pelos professores da escola, que foi notada por Caros Miguel de Araújo, então director de programas da RTP, que a convidou para fazer o já referido programa de televisão. Mas outros olhos também tinham notado o seu trabalho e Maria de Lourdes partiu para França com um bolsa do governo francês, tendo escolhido estudar literatura contemporânea. A empresa multinacional Fima/Lever também se interessou então pela sua personalidade mediática e, em breve, passaria a ocupar-se do serviço de relações com os consumidores portugueses, funções que desempenhou ao longo de 31 anos.

Prosseguiu sempre nos caminhos da culinária, acrescentando-lhes preocupações de ordem criativa, económica e de saúde. Também aqui Maria de Lourdes Modesto foi pioneira, não só se contando entre os membros fundadores da Fundação Portuguesa de Cardiologia, como sendo autora e co-autora de obras que especificamente estabelecem a relação entre a alimentação e a saúde, das Receitas do Coração e À Mesa Com o Coração ao belíssimo Cozinhar com Vegetais, passando por Uma Alimentação Saudável e Gulodices – menos calorias, o mesmo prazer, que coordenou para a Associação dos Diabéticos Portugueses. Leccionou Técnica Culinária na Escola de Dietistas de Coimbra (1982-1988), foi consultora do Instituto de Cardiologia Preventiva (1986-1990) e tem abordado estes temas em numerosos programas de televisão, de rádio e nas suas crónicas semanais no Independente, no Diário de Notícias, algumas delas reunidas em Palavra puxa Receita  e outras em Sabores com Históriasna revista Atlantis e no Expresso Online.

O primeiro grande desafio editorial aconteceu naqueles últimos anos da década de 50, tão férteis em acontecimentos no percurso de Maria de Lourdes Modesto. Ainda sem um receituário a que pudesse chamar seu e avaliando os perigos de querer andar mais depressa que o tempo, perante o assédio de várias editoras, preferiu aquela que aceitou fazer o que ela ainda hoje acha que, na época, tinha competência para fazer. Surgiu assim a Grande Enciclopédia da Cozinha, publicada pela Editorial Verbo, que constituiu o início de uma longa e mútua relação de fidelidade. A fidelidade é, aliás, um valor que Maria de Lourdes Modesto vê como um dos pilares fundamentais da sua vida. Assim, fiel também a si própria, continuou a publicar diversas obras de culinária como Receitas da TV, Receitas Escolhidas ou Festas e Comeres do Povo Português (I e II, com Afonso Praça), O Azeite em Portugal, Comer e Beber com Eça de Queiroz, Queijos Portugueses (com Maria Manuela Barbosa), Cogumelos. Do campo até à mesa (com Baptista Ferreira), ou os livros de cozinha destinados a um público infantil, como a célebre Colher de Pau, o lindíssimo A Minha Primeira Cozinha Tradicional Portuguesa (Com Gisele Miravent e as indispensáveis ilustrações de Bernardo Carvalho) e a colaborar em revistas e outras publicações especializadas. Naturalmente muito solicitada, desdobrou-se em múltiplas actividades, muitas delas no estrangeiro, quer na Europa, quer nas Américas.

Em 1982, fruto de um trabalho prolongado de recolha e selecção, apareceu a Cozinha Tradicional Portuguesa, que rapidamente se tornaria em livro de referência indispensável na gastronomia e na culinária portuguesas, que já conheceu vinte e seis edições e tem uma versão em língua inglesa. Em conjunto com algumas outras anteriores, esta obra reconstitui o património gastronómico nacional, nas suas variantes regionais e locais, e certamente ficará como um contributo notável para o conhecimento da Cultura portuguesa.

Foi agraciada com o Grau de Comendador da Ordem do Mérito (2004) e distinguida no âmbito nacional (Prémio de Gastronomia da Revista de Vinhos) e internacional (prémio «Reconnaissances 2006» da Academia Internacional de Gastronomia).

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049 livro receitas escolhidas1  CTP  vegetais
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A Colher de Pau baixa   primeira cozinha

Maria de Lourdes Modesto na sua cozinha: veja um vídeo aqui.

 

 

 

 

 

 

 

 

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