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«Quem percorrer o Alentejo aos domingos ou em dias de festa, ainda hoje mesmo, por essas aldeias, encontra grupos de cantadores, de passo cadenciado e vagaroso, a entoar o seu expressivo cantochão, de extraordinária beleza sentimental. A esse canto, majestoso e simples, dá-se o nome de «modas». As modas são cantadas a duas, três e quatro vozes, por vezes cinco, assim constituídas: ponto ou solista, alto, segundas e baixo. O ponto é o iniciador da moda e fá-lo com tanta mais perfeição quanto mais originalidade souber impor na improvisação do tema. O alto, a que também chamam, e com justa razão, a primeira voz, é a antifonia do coro, e limita-se apenas a dar três ou quatro notas, depois de terminada a execução do ponto, que o mesmo é dizer o que aponta a moda, o que dá o tema. Ao alto juntam-se as segundas, a massa sonora, à terceira inferior, e destas que, de vez em quando, geralmente só em cadências, aparece o baixo. Nos coros mistos há ainda outra voz, a quinta, que uma oitava das segundas.

Características das modas. As modas alentejanas agrupam-se por esquemas, que podemos reduzir aos seguintes: 1.º — Modas que principiam pela subdominante; 2.º — Modas de escalas sucessivas e independentes; 3.º — Modas com o emprego do trítono; 4.º — Modas construídas sobre esquemas diferentes. O facto de algumas modas principiarem pela subdominante é uma das suas características, é nisto que se afastam das regras dos grandes compositores, que, em geral, preparam as subdominantes para tirarem delas grandes efeitos. O acorde de subdominante é um acorde impressionista quando bem preparado. O alentejano a ele recorre também, para exprimir o sentimento profundo da sua inspiração musical. As escalas sucessivas e independentes vêm demonstrar que o tradicional canto alentejano traz consigo os vestígios do antigo fabordão. O emprego do trítono revela a simplicidade do canto alentejano, polifonia rude e singela, mas de fundo clássico, contra as regras dos grandes mestres. As modas construídas sobre esquemas diversos vêm também demonstrar quanto é limitado o fundo de origem do tradicional canto alentejano.

Origem do canto alentejano. Podemos, talvez, sem sombra de errar, filiar o tradicional canto alentejano, na polifonia clássica do século XV, no canto a capella, e no antigo fabordão. Para tanto, servimo-nos dos seguintes elementos: sabendo que Serpa foi sempre a terra onde se cantou melhor e onde há mais profusão de modas; que ali existiram escolas de canto popular, fundadas pelos frades Paulistas, que já haviam frequentado as escolas de polifonia clássica em Évora; que a antifonia do alto pode ser um resto do canto a capella dessa mesma época; que as escalas sucessivas e independentes são resto do antigo fabordão, como a inversão do acorde de 4.ª e 6.ª, também usado nas modas alentejanas, tudo nos leva a crer que o tradicional canto alentejano tenha a origem que atrás deixamos dito.

Considerações de carácter geral. Num livro a que demos o nome de CancioneiroAlentejano, reunimos 227 modas. Podíamos editar outro volume sem nos repetirmos, tal a profusão de modas espalhadas no Baixo Alentejo. Há-as para se cantar em passo lento e cadenciado, outras para os bailes e as de carácter religioso. As primeiras são em maior número e cantam, em geral, dois temas: o amor e a saudade. São cantigas de namorados, saudades pela ausência, amor da terra e da família. As de carácter coreográfico, pouco usadas, são em menor número. As peças religiosas repartem-se pelos três ciclos do ano litúrgico, especialmente pelo do Natal. Os cantos ao Menino são de uma expressiva beleza sentimental, todos eles, salientando-se os de Messejana, Aldeia Nova de São Bento, Aljustrel e Cuba, que se ouvem ainda nalgumas terras, na igreja, à Missa da Meia-Noite. Os Reis são outra peça religiosa que se canta ainda, de noite, às portas das casas, na véspera da Epifania, muito vulgarizada e bem viva em todas as terras. Há também alguns cantos penitenciais, cuja tradição se perdeu, ouvidos somente da boca de alguma velhinha. Em honra de Nossa Senhora também se canta, dentro e fora das igrejas.»

António Marvão,em «Alentejo», Enciclopédia Verbo – Edição Século XXI, vol. 1, Lisboa, 1998-2008 (publicado originalmente na 1.ª edição da obra, em 1961).

O Padre António Marvão é autor de outros livros, além do já indicado, como: O folclore musical do Baixo-Alentejo nos ciclos litúrgicos da Igreja, 1965; Origens e características do folclore musical alentejano, 1966; Fisionomia do canto alentejano,1970; O cante alentejano, 1985.

O Cante alentejano foi declarado Património Imaterial da Humanidade pela Unesco, em 27.11.2014.

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