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letra A (2)

A série alfabética, que abre com o A, ao mesmo tempo que propõe uma ordem de grafemas linguísticos torna-se, simbolicamente, como que as tábuas da lei da linguagem e a carta virtual do pensamento. A sua designação compõe-se dos nomes das duas primeiras letras (α – β), como se o ideal da monstratio fosse o nomear um por um os membros da teoria das «letras» e, dada a sua extensão, o falante parasse reticentemente no segundo, pois que com ele já aponta a uma pluralidade. Tudo se passa como se disséssemos: «As letras de que dispomos são alfa, beta, etc.» Já metaforicamente, para aludir ao fundamento ou à iniciação de um saber, se diz «o abc», nome triádico, de enumeração suspensiva ou paradigmática, amostra dos sinais suficientes a toda a manifestação linguística possível. Mas o alfabeto não é só a «cifra» da linguagem, instrumento cultural por excelência, senão o modo figurativo do que há de mais essencial na vida histórica: digamos assim, a representação da cultura onticamente considerada o lugar-comum que diz que Deus é o «alfa e ómega de todas as coisas», ou «de tudo», exprime a infinitude pela série literal finita, entre termos (a quo e ad quem), mas precisamente porque com essa série fechada (a alfabética) se pode representar, senão exprimir, toda a ordem de grandezas, incluso os modos daquela que a todas compreende e supera: o infinito, o englobante (Jaspers) e o ser divino, que a todos sustenta e contém. Com as letras terminais do alfabeto (x, y, z) assinalamos as incógnitas numéricas e a sua cognoscibilidade possível ou determinação. Com uma letra média dele, o n, figuramos a «variável». Esta virtualidade «matemática» do alfabeto arranca, certamente, da sua fecundidade «temática», do seu universal, omnímodo poder de representação e de figura. Dele sai, pela corporeidade da linguagem, a formalidade do pensamento, o apelo concreto do gesto emocional com que o homem acusa o que sente e dá sentido ou inflexão ao manifestado.

Ninguém já vê no A o aceno da cabeça e da corna do bovídeo (aleph), tão familiar aos pastores orientais, que o apascentaram e adoraram, sob espécie de boi ou de vaca, de bezerro ou de touro, como já se não reconhece no H a sigla do machado das derrubas. E, no entanto, essa real ou conjectural simbologia das grandes experiências humanas dos povos criadores do alfabeto vive latente nas formas literais latinas, nas suas curvas, hastes e plicas, integrando a sua expressividade, sinalizando a sua significação. Com estes modos de enunciar ordinalmente os signos linguísticos gráficos — alfabeto, abc, abecedário, alfa – e – ómega — aludimos também às simetrias e coordenações dialécticas do pensamento, às constelações simbólicas e imagísticas da «poiética». Lembramos que a mente tende, na expressão de Plutarco, a uma enkyklios paideia ou «educação por todas as ciências», em que este «por todas» se conceitua como algo cíclico, i. é, rotundo, radial, recorrente e retornante, segundo a imagem do círculo, gerador da esfera, cuja opacidade, homogeneidade e revolução, cuja rotundidade é perfeição de si mesma (a-seitas), docilidade à inclinação, mobilidade ao plano.

Assim a enciclopédia deixa de ser uma espécie de tuti frutti, uma prolixidade sobre todo o saber possível, para se tornar ratio studiorum e hierarquia das ciências, articulação epistemológica dos objectos de conhecimento, apodíctica da realidade e universal perspectiva. Claro que todo o empreendimento do saber enciclopédico se torna sinopse, sempre a partir de uma óptica determinada, quer se trate da visão «iluminista» ou «ilustrada» do mundo dada pela Enciclopédia ou Dicionário Razoado das Ciências, Artes e Ofícios, de Diderot e d’Alembert, que ficou sendo matriz e padrão do género, quer de qualquer enciclopédia moderna, feita precisamente para evitar ou superar os perigos ideológicos, instruindo-se com todas as tendências e informando-se por todos os sectores da opinião e da escolaridade do saber, mas nem assim se furtando a um certo e singular critério, exclusivo de outra dada e possível norma: neste caso um critério tecnológico de enciclopédia, correspondente à pauta cultural da nossa época e, assim, votado à variabilidade e destinado à mutação. Mas esta mesma relatividade do saber enciclopédico acaba por ser a garantia da sua validade intrínseca, a qual comporta, como coisa de cyclus (kyklos), que é o princípio da «re-volução», o movimento criador pelo histórico riccorso (Vico), cultura rotativa nos ciclos do «eterno retorno» (Nietzsche), feita das horas certas no vulnerável quadrante da simples duração efémera, i. é, sujeita aos desgastes do tempo meteorológico e cronométrico, ao vital mas precário «tempo vivido» (Bergson), ao «ser para a morte» do existente (Heidegger) — enfim, a quanto conduz, na simples arte de fazer enciclopédias, ao critério móvel horizontal, que se traduz no juízo «antiquado»/«actualizado». Enciclopédia: saber de uma vez para sempre, e à mão como gazua? Não. Enciclopédia: saber refeito e itinerante, de homo viator (Marcel), que a cada porta e enigma aplique a chave adequada.

Vitorino Nemésio

O singular texto de Vitorino Nemésio sobre a letra A acima reproduzido constitui o texto de abertura da Enciclopédia Verbo desde a sua primeira edição (1961). Não se podendo dizer que seja um texto raro, a verdade é que é pouco conhecido fora do âmbito da obra referida, pelo que, com a devida vénia, aqui justificadamente se apresenta, até pela natureza deste sítio.

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